domingo, 2 de fevereiro de 2014

Junho é a materialização do Bloco Revolucionário do Proletariado


191213 Foto4Mauro Iasi além de membro do Comitê Central do PCB é professor da Escola de Serviço Social da Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com diversos livros e trabalhos acadêmicos publicados, sendo que foi presidente do sindicato dos docentes dessa mesma instituição durante o período 2011-2013.
Em longa entrevista exclusiva ao Diário Liberdade Iasi abordou sua pré-candidatura; a formação de uma Frente de esquerda com PSOL, PSTU e movimentos sociais; a reconstrução do Partido Comunista Brasileiro depois do fim da URSS; a construção do Poder Popular como alternativa de ruptura com a ordem burguesa; as Jornadas de Junho como materialização do Bloco Revolucionário do Proletariado e a constituição de uma Frente anticapitalista e anti-imperialista a nível nacional e internacional. Também falou sobre os 10 anos de governos do PT e do rompimento do seu partido com o governo Lula em 2005.
Além disso, salientou que o Brasil já realizou sua revolução burguesa, não clássica, parecida com que Lênin chamou de via prussiana e Gramsci de revolução passiva. Ou seja, pela fala do professor não resta dúvida que a tarefa do proletariado como classe no Brasil é fazer a revolução socialista.
Mas nossa conversa com o cientista social não parou por aí. Ainda conversamos sobre a conjuntura latino-americana, a crise do capitalismo, o fim da URSS e a transição socialista no mundo.
Diário Liberdade (DL): O PCB já definiu seu nome como pré-candidato à presidência da República para as eleições de 2014 no Brasil. Isso significa que a frente de esquerda eleitoral, como houve em 2006, está descartada desde já?
Mauro Iasi (MI): Para o PCB, a Frente de esquerda não é, ou não deveria ser, uma frente eleitoral, mas representar a unidade na luta daqueles que se opõem ao atual rumo político no Brasil imposto pelos governos petistas e o bloco conservador, espaço no qual temos nos encontrado não apenas com o PSOL e o PSTU, mas com várias organizações e movimentos sociais.
Eleitoralmente, nem sempre, é possível marcharmos juntos uma vez que uma construção programática e política não pode ser feita em cima da hora e por conveniências eleitorais, até porque falamos de partidos de esquerda que prezam suas convicções e formulações.
DL: O PSOL definiu em seu 4º Congresso o nome do senador Randolfe Rodrigues como pré-candidato do partido a presidência da República. Esse fato dificulta as alianças do PCB com o PSOL nas eleições de 2014?
MI: Respeitamos as instâncias internas dos partidos amigos. A decisão sobre o melhor nome para representá-los no pleito de 2014 cabe aos militantes do PSOL.
Ao nosso ver, não é um nome de candidato (seja qual for) que ajuda ou atrapalha a unidade, mas a ausência de uma construção política tal como propusemos em 2010 quando afirmamos que uma verdadeira opção de esquerda aos governos petistas deveria partir de um amplo debate com os partidos, movimentos sociais e entidades dos trabalhadores que chegando a pontos programáticos mínimos se dispusessem a construir uma alternativa de poder de caráter socialista no médio e longo prazo em nosso país.
Infelizmente, motivos de natureza mais imediata acabaram inviabilizando esta proposta e nós, desde o encerramento das eleições de 2006, avisamos que não faríamos alianças meramente eleitorais.
DL: O PCB tem chamado a formação de frentes (anticapitalista e anti-imperialista) e a construção de um Bloco Revolucionário do Proletariado, além das eleições. Como que anda as iniciativas, esforços e conversas do PCB, de outros partidos da esquerda e dos movimentos sociais sobre esta questão?
MI: Acreditamos que houve uma inflexão na conjuntura brasileira desde junho de 2013 com as manifestações de massa que expressam as grandes contradições que amadureciam em nossa sociedade.
A luta contra o aumento das passagens dos transportes urbanos, rapidamente generalizada por uma pauta que incluía educação, saúde, a luta contra os gastos com os grandes eventos esportivos e suas conseqüências como as remoções, assim como contra a violência policial, são, para o PCB, a materialização daquilo que chamamos de Bloco Revolucionário do Proletariado, porque ele não é um movimento ou uma instituição, mas sim a capacidade da classe trabalhadora através de sua ação e identidade política independente se contrapor ao bloco conservador que hegemoniza a política brasileira.
Procuramos atuar decisivamente neste campo, junto aos movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda, mas também organizações e coletivos que tem tido papel importante na manutenção das lutas de rua.
DL: Em 1992 a “seção brasileira” da III Internacional comunista dividiu-se em duas: PPS e PCB. Você pode explicar para nossos leitores, principalmente galegos e portugueses, com se deu o fato descrito acima?
MI: Em verdade, não se tratava da seção brasileira da III Internacional, há muito já inativa. A divergência baseava-se na leitura sobre a crise que levou ao desmoronamento da União Soviética.
Houve uma tentativa de liquidar o PCB em 1992 que faz parte de um processo mais amplo de crise dos PCs em todo o mundo. Aqui havia o discurso que o PCB estava antiquado e deveria se “renovar”, apresentar um perfil democrático distanciando-se da meta socialista e anticapitalista que sempre caracterizou sua história para ter espaço na política brasileira. Aqueles que assim pensavam formaram o PPS que, desgraçadamente, acabou se tornando uma linha auxiliar da direita em nosso país, ao lado do PSDB e do DEM.
Graças à resistência de vários camaradas o PCB sobreviveu, resistiu e empreendeu um difícil caminho de reconstrução, mantendo seus princípios e convicções socialistas e revolucionárias.
DL: O PCB participou do bloco político que elegeu Lula em 2002. Em 2005 rompeu com o governo. Por quê?
MI: A eleição de Lula em 2002 significava o culminar de um longo processo de luta e resistência contra a alternativa chamada de neoliberal apontando para reformas de caráter popular e democráticas.
Entretanto, o governo Lula optou por um tipo de governabilidade que os jogou em alianças ao centro e depois à direita com legendas como o PMDB de Sarney, o PP de Paulo Maluf, o PTB de Roberto Jefferson. Manteve todos os elementos de uma macroeconomia que visava garantir as condições para a acumulação de capitais, como a política fiscal e monetária, o controle da inflação, o saneamento financeiro do Estado, a formação de superávits primários, etc; ao mesmo tempo em que impunha contra-reformas, como o desmonte da previdência pública, não fez a reforma agrária necessária, deu continuidade as privatizações diretas ou indiretas através das parcerias público privadas e aprofundou a flexibilização e perda de direitos para os trabalhadores.
Isso nos levou ainda em 2005, portanto, antes dos escândalos do chamado “mensalão” que envolveu o desvio de recursos para comparar a base de sustentação do governo, a romper com o governo petista.
DL: Como o partido, em resumo, explica o projeto do desenvolvimentismo lulista, em curso desde 2002, no Brasil?
MI: O PT caminhou para uma alternativa de pacto social com a grande burguesia monopolista, fundado na idéia que a base para um chamado desenvolvimento social é o crescimento da economia capitalista, do mercado e da ordem institucional burguesa. Procura diferenciar-se da alternativa neoliberal, que apregoa a prioridade do mercado, afirmando a necessidade do Estado no apoio e subsídio à economia de mercado, numa aparente oscilação entre neoliberalismo e um tipo de neodesenvolvimentismo.
Sabemos que esta é uma disjuntiva falsa. O capitalismo sempre exigiu em seu sociometabolismo a presença do mercado e do Estado, trata-se da ênfase em um ou outro pólo que são os dois elementos essenciais para a acumulação de capital. Mais mercado, ou mais Estado para garantir o bom funcionamento da economia capitalista.
Neste caminho a prioridade é dada às ações que garantam o crescimento da economia capitalista, seja através de subsídios e transferências vultuosas à economia privada, seja através de ações indiretas como as políticas de controle financeiro e inflacionário. O que sobra é destinado ao combate às manifestações mais gritantes da pobreza absoluta, numa política fragmentada e focalizada sob os moldes do Banco Mundial.
O resultado disso é que se há uma diminuição da pobreza absoluta, com os 20% mais pobres que viviam com menos de U$ 1,00 /dia, passando a viver com algo perto de U$2,00 /dia, ou seja, com renda que varia entre R$ 90,00 e R$ 200,00 (no máximo um terço do salário mínimo real); os 10% mais ricos que em 1990 acumulação 53% da riqueza nacional, hoje abocanham 74,2% desta riqueza.
O desenvolvimento gerou enorme acumulação de propriedades e riquezas no agronegócio e estagnou a reforma agrária para os assentamentos e pequenos camponeses; gerou milhões para bancos, grandes monopólios industriais, comerciais, de construção, transporte e outros, ao mesmo tempo precarizou as condições de trabalho retirando ou flexibilizando direitos dos trabalhadores, sucateou os serviços públicos como educação, saúde, saneamento e outros agravando a situação já explosiva dos grandes centros urbanos.
DL: O PCB tem defendido que temos condições objetivas para a revolução socialista e que a fase de etapas da revolução brasileira está superada. Isso significa que o Brasil já fez sua revolução burguesa (anterior a socialista)? E se fez, quando foi? Ou a leitura que o PCB faz do processo histórico brasileiro é guiada por conceitos gramscianos (revolução passiva, transformismo conservador, etc.)?
MI: A Revolução Burguesa no Brasil já se realizou de maneira não clássica consolidando uma ordem burguesa moderna e inserida de forma dependente na ordem do capital imperialista mundial. Temos hoje um capitalismo completo, isto é, que possui todos os elementos necessários para proceder à acumulação de capitais, um Estado Burguês consolidado e uma sociedade civil burguesa sólida.
Este processo se estendeu no tempo, desde o período Vargas, entre as décadas de 1930 e 1950, com a inserção dependente em relação ao imperialismo no período Juscelino Kubitschek (1955-1960), com a ditadura burguesa estabelecida com o golpe de 1964 e consolidado com o atual processo de Democracia burguesa.
Estamos diante de uma via não clássica, mas é mais que isso, quero dizer, uma forma particular de expressão daquilo que Lênin chamava de Via Prussiana e Gramsci de revolução passiva. Não temos dúvida de que neste processo o PT expressa um claro exemplo de transformismo, ou seja, “absorção gradual, mas contínua, e obtida com métodos de variada eficácia, dos elementos ativos surgidos dos grupos aliados e mesmo dos adversários e que pareciam irreconciliáveis inimigos”, nas palavras de Gramsci.
DL: Quais grandes marxistas brasileiros influenciam teoricamente o PCB hoje?
MI: Estamos vivendo um rico processo de florescimento do pensamento marxista no Brasil, mas isso só foi possível porque houve uma geração de marxistas que resistiram ao canto de sereia da pós-modernidade e souberam manter, em tempos muito difíceis, os princípios e a clareza teórica que nos caracteriza. São muitos os intelectuais marxistas brasileiros que contribuem para nossas atuais reflexões, sejam aqueles que hoje são quase clássicos entre nós, como de uma nova geração que apresentado produções de altíssima qualidade
Procuramos utilizar todos, tendo ou não vinculo orgânico com o PCB e independente de suas preferências políticas, desde que contribua qualitativamente em nossas reflexões. O PCB hoje não define nenhuma linha como doutrina oficial. Somos marxistas.
DL: Parece que o PCB tem procurado usar contribuições de marxistas clássicos além do marxismo-leninismo (Luckács, Luxemburgo e Gramsci) para sua formação política. E Trotsky não contribui?
MI: Para nós o caminho dos clássicos sempre é o caminho mais correto, sem um fundamento consistente nas obras de Marx, Engels e Lênin, nenhum estudo do marxismo pode frutificar. Mas o marxismo, ou os marxismos, hoje se tornaram um rico e complexo campo, plural e múltiplo, enriquecido com as obras e reflexões que vão desde Lukács à Gramsci, passando por Trotsky, Mao, Che, Fidel, Rosa, Kollontai e de todos os revolucionários e pensadores do século XX, como Mariategui, Amilcar Cabral, Álvaro Cunhal e tantos outros.
Leon Trotsky foi um grande revolucionário e tem contribuições inestimáveis ao pensamento marxista, seria um erro desconsiderar suas contribuições. Não é preciso ser trotskista para utilizar Trotsky, da mesma forma que ser trotskista não é garantia que o utilize corretamente.
O PCB se considera, hoje, um partido marxista e se a identidade marxista-leninista persiste se dá pela nossa convicção nas formas de organização e princípios políticos que daí derivam e não como cânone indiscutível que funciona como critério de validação de verdades teóricas. Como dizia Fidel, o marxismo não é uma propriedade privada registrada em cartório, é uma teoria revolucionária, feita por revolucionários, desenvolvida por revolucionários e para revolucionários; aqueles que forem capazes de dar interpretações corretas da realidade triunfarão os que não conseguirem serão suplantados. Pensamos ser este nosso critério.
DL: Na Europa, também em Portugal, Galiza e no Estado Espanhol se têm a imagem que os governos Latino-americanos que subiram ao aparelho de estado de seus países a partir, entre outras coisas, da crise neoliberal são todos de esquerda. Vocês têm diferenciado seus projetos em duas categorias. Teria os progressistas - de esquerda - (Venezuela, Equador e Bolívia) e os conservadores – de centro e até de direita - (Chile, Peru, Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina). Quais elementos os progressistas têm para serem classificados em uma categoria em separado?
MI: Nós prezamos muito o termo esquerda para utilizá-lo sem critérios mais precisos. Para nós o compromisso e a posição de esquerda, ainda mais em um mundo como o nosso, se justifica pelo claro posicionamento ao lado da classe trabalhadora contra a barbárie do capital. Existem setores de esquerda, ainda que não marxistas ou mesmo revolucionários, isto é do campo do reformismo, assim como existem posições que, ainda que tendo origem neste campo, se distanciaram e hoje, infelizmente, assumem uma posição de centro-direita que favorece os interesses do capital contra os trabalhadores, como foi classicamente o desenvolvimento da socialdemocracia européia.
Na América Latina, procuramos diferenciar processos que, mesmo não sendo imediatamente socialistas, levam à frente reformas que tencionam a ordem do capital, dinamizam a luta de classes e ajudam a formar um bloco de forças populares contra os ataques do capital e do imperialismo. Parecem-nos claramente os casos da Venezuela e Bolívia e em menor medida do Equador.
Não podemos caracterizar desta forma o Brasil ou o Chile sob o governo de Bachelet. Ficaram aquém das reformas e optaram por governabilidades que viabilizam a continuidade dos governos, mas não o avanço das demandas populares; pelo contrário, tornaram-se o meio pelo qual a ordem burguesa legitima suas contrarreformas.
DL: Qual a relação do partido com Cuba e sua posição em relação às reformas que estão acontecendo na ilha?
MI: Nós temos uma história e um compromisso de solidariedade com Cuba e prezamos muito sua autodeterminação. Nossa solidariedade é incondicional, mas nos resguardamos o direito de afirmar que isso não implica em alinhamento político incondicional.
Vemos com certa preocupação os rumos da revolução cubana e as reformas em curso, ainda que compreendamos a grave situação na qual aquele país se encontra, por conta do brutal bloqueio imperialista, que já dura meio século. Mas confiamos que não haverá retrocesso no processo socialista em Cuba, em que decisões complexas são tomadas após amplo debate popular. Como disse Silvio Rodriguez em uma de suas composições mais recentes: “A desencanto, opóngase deseo. Superen la erre de revolución. Restauren lo decrépito que veo, pero déjenme el brazo de Maceo y para conducirlo, su razón.”
DL: Qual é o balanço que o senhor e PCB fazem das experiências socialistas do século XX, com destaque para o do Leste Europeu e da URSS?
MI: Antes de tudo consideramos a experiência de transição socialista do século XX, inaugurada pela Revolução Russa de 1917, nosso patrimônio histórico e o principal fato da história recente da humanidade que iniciou nossa construção do futuro emancipado do gênero humano. Com suas vitórias e com suas derrotas, com acertos e erros, é nossa história. E consideramos que o saldo foi positivo.
Foi um momento no qual os trabalhadores de todo o mundo puderam contar com uma retaguarda política e um equilíbrio de forças que produziu, inclusive, vitórias e conquistas na Europa, nos EUA e em todos os povos, até como concessões para evitar a ruptura revolucionária que o bloco socialista representava. Para aqueles que viviam nestes países o início de uma transição socialista, também, tivemos inegavelmente uma alteração qualitativa quanto à vida e suas possibilidades fora do mercado e do domínio do capital.
Em seu XIV Congresso, o PCB debateu o tema da transição socialista e chegamos à conclusão que não cabe a um partido resolver na forma de uma resolução um debate histórico com tantas implicações. Não se trata de dizer apenas se era ou não socialismo, de aceitar passivamente as formas que ali se expressaram de maneira a justificar todas suas conseqüências. Trata-se de uma polêmica política e teórica em aberto, para qual o PCB oferece textos e reflexões, mas não resoluções a serem burocraticamente repetidas.
A experiência de transição socialista ocorrida na URSS e no leste europeu, assim como na Ásia e em Cuba, para nós confirma, ainda que tragicamente, as previsões teóricas de Marx, tanto quanto à potencialidade da revolução, a necessidade da ruptura revolucionária, da destruição do Estado burguês e constituição de um Estado Proletário, a necessidade de socialização dos meios de produção com o fim da propriedade privada e da apropriação privada da força de trabalho.
Ao mesmo tempo, confirma-se tragicamente, que apenas isso, ainda que essencial, não é suficiente. É necessária a superação da escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, a superação da contradição entre trabalho manual e intelectual, superar o trabalho como mero meio de vida e permitir o desenvolvimento dos indivíduos sociais em todas as dimensões até que cada um possa trabalhar de acordo com a capacidade e receber de acordo com a necessidade. Estes aspectos que Marx enuncia em sua Critica ao Programa de Gotha, são a natureza mesma da transição.
O que vimos nas experiências do século XX foi o início desta transição que não se completou, ficando, por assim dizer, no meio do caminho. Ocorre que estes elementos não superados permitiram que, através de uma contrarrevolução, a experiência fosse interrompida e restabelecida a ordem do capital com todos os efeitos trágicos que hoje presenciamos entre aqueles povos. A contradição entre a ousadia da mudança política e as condições objetivas em que se deram produziram como efeito o processo de burocratização.
Houve, portanto, uma combinação de fatores objetivos (grau de desenvolvimento das forças produtivas, correlação de forças mundiais, etc.) e fatores políticos próprios da condução do processo; a resultante foi uma derrota, não definitiva, das forças socialistas.
A história destas formações sociais e o próprio desfecho das experiências socialistas e a atual crise do capitalismo, nos autorizam a afirmar a validade e, mais que isso, a necessidade de uma alternativa socialista para o mundo contemporâneo.
DL: Seja na mídia, seja na academia, divulga-se que a crise econômica que vivemos é mais uma crise cíclica do modo de produção capitalista. Porém autores como István Mészáros vem falando em crise estrutural do capital. Como você entende o processo.
MI: Concordamos com Mészáros que vivemos algo muito distinto de uma mera crise conjuntural do capitalismo e que o capital, em suas palavras, ativou os limites estruturais de suas contradições. No entanto, a característica da crise cíclica apontada por Marx persiste, isto é, como o próprio Mészáros indica, é necessário distinguir o caráter estrutural da crise de seu “desfecho último”, como se o capital não tivesse mais saída.
Uma coisa que aprendemos é que o capital sempre encontra uma saída se não for derrotado politicamente pelos trabalhadores e estes forem capazes de contrapor à sociedade do capital uma alternativa socialista. A crise torna possível a mudança revolucionária, mas não inevitável; esta depende da capacidade política das classes revolucionárias.
DL: O capitalismo no mundo é global, nesse sentido é mais do que necessário uma revolução mundial. Assim como defendeu Hugo Chávez, o PCB defende a construção de uma V Internacional?
MI: Apontamos para isso em nossa concepção de uma Frente anticapitalista e anti-imperialista. Hoje, qualquer luta por mínima que seja se choca com a ordem do capital monopolista e esta está incontornavelmente associada ao capital imperialismo. Lutar contra as formas que impedem a vida em nossos países é lutar contra o capitalismo e lutar contra o capitalismo é lutar contra a ordem internacional na qual ele opera a acumulação, ou seja, a ordem imperialista.
Este quadro nos obriga a pensar a revolução como revolução mundial e cremos que estamos já operando nesta situação, ainda que o grau de consciência, organização e unidade das forças revolucionárias em marcha seja muito incipiente. Neste sentido toda forma de tentar dar um caráter internacional à luta seria muito importante. Não sabemos se na forma de uma Internacional nos moldes com as experiências ate então realizadas se deram, mas de alguma forma temos que dar um salto organizativo rumo a uma forma universal contra o capital que se tornou um entrave universal à humanidade.
DL: Se o PCB ainda considera socialismo como etapa transitória ao comunismo – sociedade de trabalhadores associados e livres – o que seria realmente o estágio socialismo no Brasil e no mundo?
MI: Mais que nunca nossa meta comunista está atualizada. Não se trata de transformações que tornem possível a vida no Brasil, mas até pelo que dissemos antes, ao lutar contra o capitalismo no Brasil estamos enfrentando o capitalismo mundial e as condições para uma verdadeira emancipação humana só pode vir dos esforços e recursos combinados de todo o planeta.
O segundo elemento de nosso propósito comunista é o fim do Estado. É preciso hoje ressaltar este aspecto diante do moderno culto ao Estado como forma insuperável da sociabilidade humana. A destruição do Estado Burguês não cria as condições imediatas para tanto, mas deve criá-las no processo de transição, caso contrário, podemos cair no impasse das transições ocorridas no século XX. Temos que resgatar alguns elementos pertinentes do alerta que o pensamento anarquista já formulava há muito tempo sobre este risco.
O socialismo no Brasil é uma alternativa e uma necessidade. Ele é uma alternativa perfeitamente viável. Um dos mitos que alimentam o reformismo rebaixado e o oportunismo de toda espécie é a afirmação que o socialismo se tornou inviável, seja pela correlação de forças, seja pelo poder militar e ideológico da burguesia.
Vamos por partes. O socialismo é uma necessidade porque o capitalismo ameaça a vida da humanidade com a forma mercadoria, a produção destrutiva e a destruição ambiental. É possível e necessário que passemos a produzir valores de uso que satisfarão necessidades e que possam ser acessados sem a intermediação do mercado. Ora, não há nenhum empecilho de ordem material ou tecnológica para atingirmos este fim, o que impede isso é a forma mercadoria, a propriedade privada e as relações sociais de produção burguesas. Nós podemos mudar estes aspectos e as revoluções provam isso.
Com a natureza disponível se bem cuidada, a quantidade e qualidade da força de trabalho existente e o nível de desenvolvimento tecnológico existente e em potencial, poderíamos satisfazer o conjunto das necessidades da população do Brasil (e no conjunto da humanidade do planeta). O problema são as atuais relações sociais de produção de tipo burguesa, a acumulação privada da riqueza socialmente produzida.
Devemos começar por garantir o caráter não mercantil e radicalmente público de todos os bens e serviços necessários à vida como educação, saúde, assistência e previdência, energia, transporte, água, etc. Para tanto é fundamental que nenhum recurso público seja destinado a fins privados e o Estado dos trabalhadores tenha os instrumentos para iniciar a constituição das bases de uma economia socializada o que é possível através de uma radical reforma agrária que dê condições para os pequenos camponeses e assentamentos, ao mesmo tempo que desenvolva iniciativas para a produção de alimentos, matérias primas essenciais e outros produtos, controle o subsolo e as riquezas minerais, estatize o sistema financeiro e revertam as privatizações fraudulentas de empresas essenciais como mineradoras companhias hidroelétricas, telecomunicações, estradas, ferrovias, portos e aeroportos.
Evidente que isso exige uma ruptura com a dominação e os privilégios hoje existentes. Por isso, a precondição para tanto não é uma mera vitória eleitoral, mas a constituição de um Poder Popular forte o capaz de resistir, enfrentar e derrotar os poderosos instrumentos de poder das classes dominantes. Isso implica, em grande medida, uma batalha quanto aos valores, idéias e concepções de mundo próprias desta ordem e que a legitima e naturaliza, implicando um grande trabalho político e cultural.
Esta ruptura que pode ou não se combinar com vitórias eleitorais, mas certamente vai muito além delas, se choca com o poder dos aparatos repressivos do Estado e do imperialismo. Não desconhecemos esta correlação de forças desfavorável, no entanto, não a mitificamos. Não há força que detenha os processos históricos porque ele é fruto das contradições que esta própria ordem gera. Saberemos desenvolver os meios para que o poder popular seja uma alternativa real de poder em direção ao socialismo.
Aqui e no mundo o projeto socialista está na fase de uma radical negação da ordem capitalista em defesa da vida humana e precisamos reafirmar que nós, comunistas e revolucionários, temos uma alternativa, que não fazemos parte desta corja de oportunistas que bateu em retirada para o conforto das incertezas pós-modernas ou para as experiências reformistas de baixa intensidade que acabam por garantir a ordem burguesa. Como disse certa vez: “lá no passado tínhamos um futuro; lá no futuro temos um presente pronto para nascer... só esperando você se decidir”.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Liberdade imediata aos presos no Paraguai!


Na noite do dia 03 de janeiro, durante uma manifestação pacífica contra o aumento da tarifa de transporte público, a polícia paraguaia repreendeu com tremenda brutalidade os manifestantes, deixando inúmeros feridos e 13 presos, lembrando os mais lamentáveis anos da ditadura de Strossner. Essa é apenas mais uma demonstração das duras medidas contra os trabalhadores que vêm sendo promovidas pelo governo Cartes e de sua política de repressão aos movimentos sociais.
Entre os presos políticos estavam militantes da nossa irmã Juventude Comunista Paraguaia (JCP), entre eles seu secretário Nacional Fabricio Arnellas e seu secretário de organização Miguel Lo Bianco, que já foram soltos.
A UJC – Brasil repudia veementemente os ataques cometidos ao povo paraguaio e se solidariza com sua luta, assim como se mantém em estado de alerta contra qualquer tentativa de ataque que ponha em risco a liberdade de nossos camaradas da JCP.
Contra o aumento do preço da passagem!
Pela imediata libertação de todos os presos!

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Oportunismo na Estrada do Comunismo


Miguel Urbano Rodrigues
Os trabalhadores e os povos de todo o mundo têm direito a uma sociedade livre da exploração e da opressão. Essa sociedade só será construída pelas suas próprias mãos, pela sua luta organizada e criadora. E essa luta só irá tão longe quanto é necessário se tiver no seu cerne fortes organizações revolucionárias de classe: os partidos comunistas. A reflexão acerca dos factores que dificultam, atrasam e desviam dos seus objectivos essenciais a existência e a acção dos partidos comunistas é nos dias de hoje uma tarefa de primeiro plano.
O quarto número da Revista Comunista Internacional - editada por órgãos teóricos de onze partidos revolucionários - é um valioso contributo para a compreensão das ameaças e problemas que afetam hoje a nível mundial a luta dos partidos comunistas.
O tema central da maioria dos artigos desta edição é a análise do oportunismo e do seu significado politico-ideológico. Nas últimas décadas o seu papel na social-democratização de partidos comunistas que abandonaram o marxismo-leninismo foi decisivo.
No ensaio de abertura da revista, Herwig Lerouge, do Partido do Trabalho da Bélgica, chama a atenção para as consequências nefastas da acção do Partido da Esquerda Europeia – PEE na anestesia, mais exatamente na neutralização, da combatividade de amplos sectores da classe operária em países da União Europeia. O Partido Comunista Francês-PCF e a Rifondazione Comunista Italiana-PRC (criada após a transformação do PCI num partido social-democrata) sustentam que é possível chegar- se ao socialismo pela via parlamentar. Fausto Bertinotti, que foi presidente do PEE, retomou velhas teses de Edward Bernstein ao afirmar que «o movimento dos movimentos» poderá ser o motor da caminhada para o socialismo.
O Die Linke, o Partido da Esquerda Alemã - que resultou da junção do PDS da ex-RDA com o WASG dos dissidentes do SPD da Alemanha Ocidental - adepto dessa tese, fez grandes promessas aos trabalhadores mas, após alguns êxitos iniciais, não as cumpriu e entrou em rápido declínio. Na década em que foi co-governo da cidade de Berlim com o SPD tornou-se cúmplice na privatização de mais de 100 000 apartamentos sociais, fechou creches, cortou indemnizações, privatizou transportes públicos.
Os fatos demonstram que a participação de partidos comunistas (ou ex-comunistas) em governos socialistas não trava as privatizações. O governo da gauche plurielle em França privatizou, aliás com o apoio do PCF, mais empresas do que as privatizadas durante os governos de Baladour e Juppé, ambos primeiros-ministros da direita.
Atualmente, o socialista François Hollande não hesita em assumir mais abertamente do que o próprio Obama a defesa de agressões militares imperialistas. No ataque à Líbia e no caso da Siria,por exemplo.
Na Grécia, o Syriza - amálgama de ex.trotskistas, de ex-maoístas e de trânsfugas do KKE - abandonou todas as referências ao marxismo e abstem-se de responsabilizar o capitalismo pela atual crise mundial que define como consequência de erros do neoliberalismo. No seu ambíguo programa promete revogar as medidas mais duras impostas pela troika, mas as suas propostas inserem-se num projeto de compromissos com a burguesia e o imperialismo. Nada que atinja os banqueiros e a estrutura repressiva das forças armadas. Não se opõe também à permanência da Grécia na NATO.
Na sua lucida intervenção no XV Encontro de Partidos Comunistas e Operários em Lisboa, Giorgos Marinos, do KKE, tirou a máscara ao partido de Alexis Tsipras.
«A verdade - disse – é que o Syriza como formação oportunista que se desenvolveu num dos pilares da social-democracia é apoiado por setores da classe burguesa, é um defensor do capitalismo e da União Europeia. É um partido que elogiou a linha política de Obama como progressista e promoveu o mito de que um novo vento soprava na Europa para os trabalhadores com a eleição de Hollande».
Julgo útil lembrar que o Bloco de Esquerda-BE é em Portugal (com o Partido Socialista) um defensor entusiasta da estratégia do Syriza. Francisco Louçã, seu ex-coordenador, participou mesmo em Atenas num comício do partido de Alexis Tsipras. Tal como o seu aliado, o BE, nascido da fusão da UDP, maoista, com o PSR trotskista, também se abstém hoje de referências ao marxismo.
A METAMORFOSE DO PARTIDO COMUNISTA DE ESPANHA
Importante é também o artigo na Revista Comunista de Raul Martinez e Astor Garcia, dirigentes do Partido Comunista de los Pueblos de Espana-PCPE.
Recordam que o Partido da Esquerda Europeia – PEE foi concebido para funcionar como «polo oportunista de dimensão continental e força para a colaboração de classes no âmbito da União Europeia».
Tem cumprido bem esse papel. Em l976, em Berlim Ocidental, os Partidos Comunistas de Espanha, França e Itália aderiram a uma plataforma eurocomunista «na qual – sublinham - tinha um papel determinante o apoio ao processo de formação de uma união interimperialista europeia».
E no seu IX Congresso, em l978,o PCE decidiu romper com o marxismo-leninismo e adotar o eurocomunismo como a sua ideologia.
Em l988, no XII Congresso, Julio Anguita, então secretário-geral, definiu com transparência o rumo do PCE: «É portanto necessária uma transformação da Comunidade Europeia. Para a realizar apostamos na construção de amplas alianças, a partir do movimento operário e outras forças sociais do progresso, sustentadas no terreno político pela convergência de partidos comunistas, socialistas, social-democratas, trabalhistas e verdes»
É transparente a apologia de uma estratégia incompatível com o marxismo.
Hoje, num contexto histórico diferente, cabe ao Partido da Esquerda Europeia, herdeiro do revisionismo, ser o executor dessa estratégia que privilegia a função dos parlamentos, e renuncia à luta de classes
Na prática, as «amplas frentes de esquerda» preconizadas pelo PEE conduzem a uma aliança com a burguesia que subalterniza os partidos comunistas e faz deles instrumentos de uma política reformista que nega a sua função revolucionária.
A União Europeia ideada pelo PEE seria – cito novamente Raul Martinez e Garcia - “a negação de tudo o que se relaciona com a construção do socialismo, com recusa total das tradições revolucionárias, em contradição frontal com o socialismo científico, a luta de classes e a revolução socialista».
Robert Hue, ex-secretário do PCF, desceu à baixeza de afirmar que tudo na União Soviética foi negativo.
A OBRA DEVASTADORA DO OPORTUNISMO NOS PARTIDOS COMUNISTAS DA AMÉRICA
Sob o título «Alguns traços do oportunismo na América», Pavel Blanco Cabrera, primeiro secretário do Partido Comunista do México, e Hector Colío Galindo, também dirigente do PCM, apresentam, também no último número da Revista Comunista Internacional, uma reflexão abrangente sobre as consequências devastadoras da ação do oportunismo, do reformismo e do revisionismo nos partidos comunistas da América.
Afirmando que a ausência de uma frente ideológica contra o oportunismo configura uma ameaça para os partidos comunistas, evocam a destruidora herança do browderismo na América Latina.
As teses de Earl Browder, um precursor do eurocomunismo, contribuíram nos anos 40 do século passado para a neutralização de muitos partidos comunistas da América Latina.
Deixaram aliás sementes. Hoje, Sam Web, o presidente do PC dos Estados Unidos, defende a sua transformação numa organização inofensiva, quase uma força auxiliar do Partido Democrata, uma espécie de «clube ideológico».
A chamada latino-americanizaçao do marxismo - cito Pavel e Hector - «tem muito em comum com operações corrosivas como as de Santiago Carrillo, os eurocomunistas, e o marxismo ocidental».
Académicos aventureiros e oportunistas como o alemão mexicano Hans Dieterich e o irlandês-mexicano John Holloway têm semeado a confusão; invocam o marxismo, mas na realidade combatem-no.
Em universidades prestigiadas da América Latina tornou-se quase uma moda fazer a apologia do chamado «socialismo do século XXI» para atacar o marxismo-leninismo definido como uma «ideologia estatal soviética» que qualificam de obsoleta. Subestimar os efeitos dessas campanhas é um erro. Estabelecem a confusão em meios progressistas. Sobretudo na Venezuela; mas até em Cuba fazem estragos.
As políticas que subalternizam a luta pelo socialismo - encarando-a como tarefa posterior e remota, como fizeram Bernstein e Kautsky - atribuem na prática prioridade às reformas no quadro institucional, admitindo que se pode chegar ao governo pela via eleitoral. São políticas capituladoras. Marinos não exagera ao afirmar que essa atitude «degrada o próprio objetivo estratégico, o objetivo que determina as táticas, a postura dos Partidos comunistas como um todo, o seu trabalho no movimento laboral e popular, a sua política de alianças».
O oportunismo manifesta-se, não esqueçamos, de maneiras diferentes, surgindo por vezes com máscara socialista.
Consciente dessa realidade, Pavel Blanco Cabrera e Hector Colío , na sua demolidora crítica ao oportunismo e ao revisionismo, alertam para a confusão que resulta do conceito do chamado «socialismo de mercado chinês».
A tese foi formulada por Deng Xiao Ping mas, muito antes, Mao Tse Tung, num quadro diferente, defendeu a viabilidade de alianças de partidos comunistas com um sector da burguesia nacional supostamente patriótico cujos interesses não coincidem com os do imperialismo. O resultado dessas alianças tem sido desastroso, mas a tese continua a ser uma fonte de ilusões. Alguns povos pagaram já um alto preço por esse tipo de alianças.
Identifico-me com Pavel Blanco e Hector Colío quando escrevem: «Nessa política de alianças, o papel da classe operaria e dos partidos comunistas que nela participam é subordinado; é um problema arriscado porque a independência de classe e o partido deixam de ser as tarefas prioritárias, o dever indeclinável; deixam de ser organizações militantes e transformaram-se em agrupações de filiados para as quais o socialismo passa a ser uma aspiração. Ao definir-se uma etapa intermédia de larga duração são empurradas para a colaboração de classes, os pactos sociais e um parlamentarismo funcional ao progressismo que é uma forma de gestão do capitalismo».
Enunciam uma evidência ao salientar que a denúncia firme do oportunismo, inseparável do revisionismo, é uma exigência premente na luta dos partidos comunistas revolucionários.
Já Lénine dizia que «a luta contra o imperialismo é uma frase vazia e falsa se não estiver indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo».
Mas se o reformismo, tolerado ou erigido em opção estratégica, deve ser condenado qualquer que seja a sua modalidade porque não representa uma ameaça para o capitalismo, e lhe garante pelo contrário - por ser inofensivo - a sobrevivência - que fazer, então? Como inverter a atual correlação de forças favorável ao imperialismo? Qual a alternativa ao sistema de poder imposto à Humanidade?
Esboçar sequer uma tentativa de resposta a essas perguntas não é o objetivo deste despretensioso comentário ao número da Revista Comunista Internacional dedicado à denúncia do fenómeno do oportunismo que ameaça a nível mundial os partidos comunistas.
Como comunista sei que o capitalismo, condenado, não está em vésperas de ser erradicado. Não viverei esse dia. Mas é minha inabalável convicção que a alternativa ao monstruoso sistema de exploração do homem pelo homem será o socialismo.
Não está iminente esse grande acontecimento. Nem definidos os seus contornos na fidelidade aos ensinamentos de Marx e Lenin, assimiladas as lições de muitos e graves erros (e desvios) cometidos no quadro das experiências socialistas ensaiadas pela humanidade.
Mas é falso, perverso e desmobilizador o discurso da burguesia sobre a inexistência de alternativas ao capitalismo. A social-democracia, farisaica, pretende que o capitalismo é humanizável e conta com a cumplicidade do oportunismo de múltiplos matizes.
Mentem. Pela sua essência e objetivos, o capitalismo é incompatível com as aspirações do homem. Terá de ser destruído.
Acredito que será a convergência de múltiplas lutas de muitos povos, que contribuirá decisivamente para o fim do capitalismo, abrindo as alamedas de um futuro socialista à Humanidade.
A estrada que conduz ao comunismo é longa e dificílima de percorrer, batalhando. A meta a atingir, enquanto existiu a União Soviética, parecia próxima. Ilusão. Sabemos hoje que está longe e o caminho a percorrer semeado de obstáculos de difícil superação. O discurso retorico não ajuda.
Vila Nova de Gaia, 24 de Novembro de 2013
http://www.odiario.info/?p=3096

Honduras: uma eleição roubada


"A embaixada” disse quem ganhou
Atilio A. Boron
Nas últimas horas de ontem, o Tribunal Superior Eleitoral de Honduras consagrava como vencedor o candidato do continuísmo golpista, Juan Orlando Hernández. Desde o inicio, o processo eleitoral esteve marcado por vícios irremediáveis que jogaram um pesado manto de suspeita sobre seu desenlace. A desavergonhada intervenção “da embaixada” nos assuntos internos de Honduras por si só seria uma razão suficiente para suspender as eleições, redesenhar as instituições políticas –entre elas o próprio TSE, controlado por aqueles que avalizaram o golpe de 2009– e fazer uma nova convocação eleitoral assim que reunisse condições mínimas requeridas para uma eleição, não apenas durante a campanha (por si só um problema em Honduras, dado o recorde de jornalistas e militantes opositores assassinados) mas também durante a apuração final dos votos.
Semanas antes das eleições, agentes governamentais haviam declarado que o TSE confrontaria seus números com os apresentados pela embaixada dos Estados Unidos antes de dar a conhecer os resultados definitivos! Em resumo: o vencedor seria proclamado pela “embaixada”, e o governo do continuísmo golpista de Porfirio Lobo por fim veria Honduras convertida em um protetorado estadunidense.
Esta absurda confissão diz muito da história desse sofrido país, ocupado por Washington e transformado nos anos oitenta em uma gigantesca retaguarda para servir de apoio logístico às agressões perpetradas contra a revolução sandinista por parte dos “contras” nicaraguenses.
Arquiteto deste projeto contrarrevolucionário temos John Negroponte, uma das figuras mais sinistras das Américas, e designado por Ronald Reagan como embaixador em Honduras, função na qual contou com a colaboração de outro reconhecido terrorista internacional, Otto Reich. Sob sua gestão, o exército hondurenho foi reorganizado de cabo a rabo, dotado de armamentos sofisticados, treinamento e tecnologia militar de última geração. Transformaram a base militar Soto Cano, em Palmerola, em uma das mais estratégicas das bases que os Estados Unidos possuem ma América Central e no Caribe. Quando o presidente Mel Zelaya democratizou o sistema político e ingressou na ALBA, foi violentamente destituído mediante um “golpe institucional”, durante a “administração Obama”.
Um dos analistas presentes em Honduras, Katu Arkonada, confirma a existência de múltiplas “irregularidades”, para não dizer atentados contra a vontade popular. Há pelo menos 20 por cento das atas de votação nas zonas eleitorais, em regiões onde o partido Libre conta com grande respaldo popular, que foram arbitrariamente submetidas a auditoria e não foram computadas; em comunidades apartadas se observou o “voto de cabresto” e a compra de títulos eleitorais; existem milhares de mesas onde os partidos minoritários obtiveram zero votos, ou seja, querem fazer crer que nem os seus candidatos haveriam votado em si mesmos. Só resta especular quantos votos de Xiomara Castro foram retirados das urnas.
Libre ganhou nas ruas, mas não organizou uma rede de fiscais para garantir a lisura do processo. Confiou, em sua ampla maioria, na inverossímil “imparcialidade” do TSE e do governo diante de uma eleição que o imperialismo e a oligarquia hondurenha não podiam perder, porque Washington jamais aceitaria um resultado contrário aos seus interesses na região.
O primeiro passo da estratégia norte-americana para impedir um revés político foi a campanha de difamações contra Xiomara e seu partido. O segundo, a organização fraudulenta da apuração e contagem dos votos. Terceiro, se os dois anteriores não bastassem: fraude em todo o processo eleitoral e manipulação do Congresso para impedir a vitória do partido Libre, pois, se no caso de uma vitória da oposição, provocariam sua destituição “legal” assim como fizeram com seu esposo, Manuel Zelaya.
Até agora a direita se apegou à fraude, dando a conhecer cifras que não correspondem à realidade, e que os meios hegemônicos de comunicação atestam como verdadeiras. O partido Libre terá que recuperar nas ruas o que lhe roubaram nas urnas.
Como teria reagido a suposta imprensa livre e independente do continente se os vícios, fraudes e crimes perpetrados em Honduras tivessem acontecido na Bolívia, Equador ou na Venezuela? A gritaria dos defensores do imperialismo e de seus aliados teria sido ensurdecedora. No entanto, agora mesmo nesses meios de comunicação impera um silêncio cúmplice porque em Honduras vale tudo. Por quê? Porque, assim como Israel, é a peça chave para garantir o equilíbrio geopolítico do Império no Oriente Médio, Honduras o é para a América Central, porque nesse país é onde se concentra o grosso do poder de fogo estadunidense na região. E assim como Washington não permaneceria nem um minuto de braços cruzados perante um eventual triunfo de uma easquerda anti-imperialista em Israel, se envolveu descaradamente no processo político interno de Honduras para garantir um resultado de acordo com seus interesses estratégicos na região. Menos mal que há alguns dias, na OEA, John Kerry disse que está superada a Doutrina Monroe!
* Diretor do PLED, Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini.
Fonte: http://www.atilioboron.com.ar/2013/11/honduras-una-eleccion-robada.html

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Contra a criminalização dos movimentos sociais. Todo apoio às lutas da juventude e do proletariado. Pelo Poder Popular!


(Nota Política do PCB)
As lutas sociais vêm se intensificando de maneira expressiva no Brasil após as extraordinárias jornadas que se iniciaram em junho. Como o governo não atendeu as reivindicações populares e como a população, especialmente a juventude, perdeu o medo de se manifestar, o conflito social tem se tornado cada vez mais explosivo em várias cidades do País, especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo. Todo dia em alguma cidade brasileira a população proletarizada e a juventude saem às ruas para protestar contra alguma arbitrariedade do governo e do capital, fecham rodovias, paralisam a circulação de mercadorias, enfrentam as forças policiais, sendo reprimidos violentamente.
Enquanto isso, o governo federal e os governos estaduais, numa santa aliança do grande capital, afiam seus instrumentos políticos, militares e de inteligência para reprimir os movimentos sociais. A esta estratégia se juntam os meios de comunicação de massas desenvolvendo uma grande campanha de manipulação no sentido de caracterizar as manifestações de massas como atos de vandalismo, depredações e caos. Para tanto, procuram criar bodes expiatórios, para esconder o descontentamento da população, justificar a violência policial contra os manifestantes e afastar a população das ruas.
No entanto, cada vez fica mais claro para o povo que a origem da violência são as dramáticas condições de vida da população brasileira,que enfrenta cotidianamente um transporte coletivo caótico e caro, a saúde e a educação indignas, a habitação precária e a violência policial nos bairros populares. Em vez de resolver esses problemas concretos do povo, o estado burguês, como sempre, trata a questão social como caso de polícia. Dessa forma, amplia a repressão contra a justa luta da população e da juventude por seus direitos sociais básicos e contra os desmandos policiais nos bairros das grandes cidades e até chamam o Exército e a Força Nacional para reprimir as greves e manifestações, como ocorreu recentemente nos protestos contra a entrega do petróleo ao capital.
Essa é a tradição das classes dominantes brasileiras, que foram viciadas historicamente na impunidade e na violência contra o proletariado e atualmente vêm realizando uma verdadeira guerra aberta conta o povo. Isso pode ser sintetizado em recente entrevista do governador de São Paulo, após o massacre de jovens pela polícia. Arrogante, ele disse:“quem não reagiu está vivo”,  numa autorização à barbárie. Nessa guerra, a polícia utiliza armas letais, carros blindados, balas de borracha, gás lacrimogêneo e de pimenta, bombas de efeito moral e todo um aparato bélico para enfrentar a população e os manifestantes, além do fato de que ainda infiltra agentes provocadores nas manifestações para justificar a repressão. Todos são testemunhas das prisões em massas nos recentes protestos, dos assassinatos e da violência, sobretudo contra jovens pobres e negros,vítimas principais da polícia, sem direito de defesa e mais ainda a “embargos infringentes”.
Alguns exemplos concretos podem ilustrar a barbárie contra a população e a juventude. Recentemente, o ajudante de pedreiro Amarildo foi torturado até a morte numa Unidade de Polícia “pacificadora” do Rio de Janeiro. Em São Paulo, um policial matou com um tiro no peito jovem Douglas Rodrigues numa batida policial, sem nenhum motivo. “Por que o senhor atirou em mim?” foram as últimas palavras do jovem antes de morrer. Durante as manifestações de junho a polícia atirou com balas de borracha e cegou dois manifestantes, um estudante e um fotógrafo.
Portanto, essa é a verdadeira violência, a violência institucionalizada, a violência do Estado e do capital. O que é mais desumano? Quebrar algumas agências de banco, lojas comerciais e bater num policial que estava provocando os manifestantes ou a tortura até a morte do ajudante de pedreiro Amarildo, o assassinato do jovem Douglas Rodrigues ou furar os olhos de dois jovens?  Portanto, a violência da população não é nada mais nada menos que a resposta às atrocidades de que cotidianamente são vítimas o proletariado  e a juventude nos bairros populares.
Essa conjuntura é que provocou o surgimento de diversos grupos e táticas que identificamos como anticapitalistas, incluindo os chamados Black Blocs, que vêm dando resposta violenta à violência da polícia, expressando a indignação da juventude contra a repressão permanente ao povo, contra as humilhações cotidianas das batidas policiais nos bairros e as precárias condições de vida da população. Os jovens e os proletários não querem mais ver seus irmãos, amigos e conhecidos serem assassinados nesta escalada da criminalização da pobreza. Esses grupos combativos de jovens são um fenômeno social e não podem ser tratados como marginais, nem criminosos. São jovens indignados com a violência do capital, que imaginam estar contribuindo para o enfraquecimento do capitalismo com ações espetaculares, de pequenos grupos ousados. Os jovens comunistas, nas manifestações populares, perfilam lado a lado com esses grupos na autodefesa contra a violência policial.
O Partido Comunista Brasileiro (PCB) tem longa experiência de luta contra o capital. Sabemos que só as lutas que envolvam grandes massas, com protagonismo da classe operária e dos trabalhadores em geral, são capazes de derrubar o capitalismo. Por isso, procuramos organizar os trabalhadores, a juventude e o povo pobres dos bairros para derrotar o sistema capitalista. Entendemos que os Black Blocs, anarquistas e outros grupos que se formam em função da resistência à violência policial não são nossos inimigos, como alguns setores da esquerda institucionalizada procuram fazer crer. São companheiros que utilizam uma tática diferente da nossa, mas merecem respeito e solidariedade e temos a obrigação de dialogar com esses segmentos e procurar trazê-los para a luta organizada de massas.
Entendemos que a luta de classes mudou de patamar no País e tende a se acirrar à medida em que a crise econômica mundial avança e que a crise social se intensifica no Brasil. É bom que a esquerda institucionalizada vá se acostumando com a resposta das massas à violência do Estado. As jornadas de junho foram apenas o começo de um processo que será longo, violento e tenso, como toda a luta de classes. Como organização revolucionária, nós estaremos sem vacilações na linha de frente das lutas sociais e políticas no Brasil, procurando contribuir para a organização e autodefesa do povo e construção do poder popular, no rumo da sociedade socialista.
Contra a criminalização dos movimentos sociais!
Toda solidariedade aos que estão na luta anticapitalista!
Pela libertação dos presos políticos e o fim dos processos judiciais!
Pelo Poder Popular!
PCB (Partido Comunista Brasileiro)
Comissão Política Nacional
(novembro de 2013)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

PCB LANÇA MAURO IASI PRÉ CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA


A Comissão Política Nacional do PCB, reunida nesta data, conforme decisão do Comitê Central, submete à apreciação da militância do Partido, de seus amigos e aliados, a proposta de lançamento da pré-candidatura do camarada Mauro Iasi à Presidência da República, levando em conta as seguintes razões principais:
  • A necessidade de fazermos um contraponto à escancarada antecipação da campanha eleitoral de 2014, um teatro de mau gosto em que predominam falsas divergências entre políticos e partidos burgueses, negociatas, barganhas e toda sorte de cenas da mesma novela bianual da disputa por espaços na máquina estatal;
  • O desinteresse dos partidos com os quais compartilhamos a oposição de esquerda em construir uma frente permanente programática, para a unidade na luta para além das eleições e dos partidos com registro. Desde 2006, o PCB insiste nesta proposta, recusando-se a formar coligações efêmeras, engendradas às vésperas das eleições e apenas em função delas;
  • A necessidade de apresentarmos um programa político que denuncie a opressão e a violência do capitalismo e contribua com a construção do Poder Popular, dialogando com todos e todas cujas vozes se levantam nas ruas, respeitando suas formas de luta e sua recusa em participar do jogo institucional burguês;
  • O fato de a pré-candidatura de Mauro Iasi vir brotando da militância e de simpatizantes do PCB, inclusive angariando a simpatia de outros setores progressistas e de esquerda, desencantados com a postura eleitoreira de partidos e movimentos, parlamentares e candidatos de plantão.
Assim sendo, a CPN, ouvido o Comitê Central, resolve iniciar um processo de discussão no interior do Partido a respeito desta proposta, recomendando que os Congressos Regionais do PCB, que se realizarão no próximo mês de novembro em todo o país, nos marcos do XV Congresso Nacional do PCB, repercutam esta proposta, sem perder a centralidade dos debates no temário principal do Congresso.
O lançamento da pré-candidatura própria do PCB não é um expediente para barganhar com os partidos da oposição de esquerda, com os quais queremos construir uma frente de unidade na luta cotidiana, a partir das bases. Nos Estados em que essa unidade já se desenvolve, devemos estimular a possibilidade de alianças nas eleições regionais.
Nos dias 7 e 8 de dezembro próximo, mais uma vez o Comitê Central estará reunido e dedicará um espaço em sua agenda, voltada para o XV Congresso e outros temas, para conhecer a repercussão da proposta nas bases e, se for o caso, dar outros passos no sentido da pré-candidatura do camarada Mauro Iasi.
Comissão Política Nacional do PCB
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2013

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Fidel Castro: A mentira tarifada

REFLEXÕES DE FIDEL

O que me move a escrever é o fato de que estão para ocorrer acontecimentos graves. Não transcorrem em nossa época 10 ou 15 anos sem que nossa espécie corra perigos reais de extinção. Nem Obama nem ninguém poderia garantir outra coisa; digo isto por realismo, já que somente a verdade nos poderia oferecer um pouco mais de bem-estar e um sopro de esperança. Em matéria de conhecimentos, chegamos à maior idade. Não temos direito a enganar nem a nos enganarmos.
  Em sua imensa maioria a opinião pública conhece bastante sobre o novo risco que está às suas portas.
  Não se trata simplesmente de que os mísseis de cruzeiro apontem para objetivos militares da Síria, mas que esse valente país árabe, situado no coração de mais de um bilhão de muçulmanos, cujo espírito de luta é proverbial, declarou que resistirá até o último alento a qualquer ataque a seu país.
  Todos sabem que Bashar al Assad não era político. Estudou medicina. Graduou-se em 1988 e se especializou em oftalmologia. Assumiu um papel político com a morte de seu pai, Hafez al Assad, no ano 2000 e depois da morte acidental de um irmão, antes de assumir aquela tarefa.
  Todos os membros da Otan, aliados incondicionais dos Estados Unidos e uns poucos países petroleiros aliados ao império naquela região do Oriente Médio, garantem o abastecimento mundial de combustíveis de origem vegetal, acumulados ao longo de mais de um bilhão de anos. Em contrapartida, a disponibilidade de energia procedente da fusão nuclear de partículas de hidrogênio, tardará pelo menos 60 anos. A acumulação dos gases de efeito estufa continuará, assim, crescendo a elevados ritmos e após colossais investimentos em tecnologias e equipamentos.
  Por outro lado, afirma-se que em 2040, em apenas 27 anos, muitas tarefas que a polícia realiza hoje, como impor multas e outras tarefas, seriam realizadas por robôs. Imaginam os leitores quão difícil será discutir com um robô capaz de fazer milhões de cálculos por minuto? Na realidade era algo inimaginável há alguns anos.
  Há apenas algumas horas, na segunda-feira, 26 de agosto, notícias das agências clássicas, bem conhecidas por seus serviços sofisticados aos Estados Unidos, dedicaram-se a difundir a informação de que Edward Snowden teve que se estabelecer na Rússia porque Cuba tinha cedido às pressões dos Estados Unidos.
  Ignoro se alguém em algum lugar disse algo ou não a Snowden, porque essa não é minha tarefa. Leio o que posso sobre notícias, opiniões e livros que são publicados no mundo. Admiro o que há de valente e justo das declarações de Snowden, com o que, a meu juízo, prestou um serviço ao mundo ao revelar a política repugnantemente desonesta do poderoso império que mente e engana o mundo. Com o que eu não estaria de acordo é que alguém, quaisquer que fossem os seus méritos, possa falar em nome de Cuba.
  A mentira tarifada. Quem a afirma? O diário russo “Kommersant”. O que é esse libelo? Segundo explica a própria agência Reuters, o diário cita fontes próximas ao Departamento de Estado norte-americano: “o motivo disso foi que no último minuto Cuba informou às autoridades que impediram que Snowden tomasse o voo da companhia aérea Aeroflot.
  “Segundo o jornal, […] Snowden passou um par de dias no consulado russo de Hong Kong para manifestar sua intenção de voar para a América Latina, via Moscou.”
  Se eu quisesse, poderia falar destes temas sobre os quais conheço amplamente.
  Hoje observei com especial interesse as imagens do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, durante sua visita ao navio principal do destacamento russo que visita a Venezuela depois de sua escala anterior nos portos de Havana e da Nicarágua.
  Durante a visita do presidente venezuelano ao navio, várias imagens me impressionaram. Uma delas foi a amplitude dos movimentos de seus numerosos radares capazes de controlar as atividades operacionais da embarcação em qualquer situação que se apresente.
  Por outro lado, indagamos sobre as atividades do jornal mercenário “Kommersant”. Em sua época, foi um dos mais perversos veículos de imprensa a serviço da extrema direita contrarrevolucionária, a qual se aproveita do fato de que o governo conservador e lacaio de Londres envie seus bombardeiros à base aérea no Chipre, prontos para lançar suas bombas sobre as forças patrióticas da heróica Síria, enquanto no Egito, qualificado como o coração do mundo árabe, milhares de pessoas são assassinadas pelos autores de um grosseiro golpe de Estado.
  É nesse clima que se preparam os meios navais e aéreos do império e de seus aliados para iniciar um genocídio contra os povos árabes.
  É absolutamente claro que os Estados Unidos sempre tratarão de pressionar Cuba como faz com a ONU ou qualquer instituição pública ou privada do mundo, uma das características dos governos desse país e não seria possível esperar de seus governos outra coisa; mas não é vão que há 54 anos se resiste defendendo sem trégua — e o tempo adicional que for necessário —, enfrentando o criminoso bloqueio econômico do poderoso império.
  Nosso maior erro é não termos sido capazes de aprender muito mais em muito menos tempo.
 
Fidel Castro Ruz
27 de agosto de 2013,
20h34 •
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A ocupação do Haiti é uma vergonha para os latino-americanos


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Não podemos permitir que a vergonhosa ocupação do Haiti complete 10 anos em 2014.
Há nove anos, governos latino-americanos, sob o comando do Brasil, se submeteram a determinação dos Estados Unidos e do Conselho de Segurança da ONU para ocupar militarmente o Haiti e assim respaldar o golpe perpretado pelo imperialismo em fevereiro de 2004, quando comandos estadunidenses e franceses seqüestraram o presidente legitimamente eleito pelo povo haitiano, Bertrand Aristide, até hoje com paradeiro incerto.
Nessa “Missão de Paz”, em verdade ocupação militar, o Brasil conseguiu a cumplicidade de outros governos da América Latina, independente de serem considerados progressistas ou conservadores: Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Uruguai, caudatários da vocação imperialista do estado burguês brasileiro e sua obsessiva pretensão de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
As tropas da Minustah, criadas para a “estabilização” do Haiti, são forças que garantem a opressão econômica, social e política do nosso povo irmão, a repressão aos movimentos sociais e às manifestações populares por sua autodeterminação.
É urgente o lançamento de uma campanha mundial PELA IMEDIATA RETIRADA DAS TROPAS ESTRANGEIRAS DO HAITI.
Esta é uma tarefa de todas as forças políticas presentes a este Encontro, sobretudo daqueles partidos ditos de esquerda que sustentam os governos dos países ocupantes do Haiti, co-responsáveis por essa infâmia, com características neocoloniais, que envergonha toda a América Latina e impede que o povo haitiano decida soberanamente seu destino.
São Paulo, 30 de julho de 2013
PCB – Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central
Documento do Comitê Central do PCB ao Fórum de São Paulo

O futuro da América Latina está sendo jogado na Colômbia e na Venezuela


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(Pronunciamento do PCB – Partido Comunista Brasileiro, no Encontro do Foro de São Paulo, 30/07 a 04/08/2013)
A ofensiva imperialista na América Latina recrudesceu na presente década, diante do avanço do processo heterogêneo de mudanças que experimenta nossa região. Depois da reativação da IV Frota e da instalação de mais bases militares na Colômbia, o imperialismo, em conluio com as oligarquias locais, já derrubou governos progressistas em Honduras e no Paraguai, através de “golpes institucionais”.
A constituição da Aliança do Pacífico é parte dessa ofensiva, destinada a fragilizar as alianças regionais progressistas, como a ALBA, a CELAC, a UNASUL. A mafiosa Sociedade Interamericana de Imprensa impulsiona campanha contra a democratização e o controle social da mídia. Denúncias recentes mostram que a espionagem estadunidense em nossos países é mais profunda e descarada do que imaginávamos. A empáfia colonial chega ao ponto de desrespeitar a soberania boliviana e atentar contra a vida de Evo Morales, emblemático exemplo da resistência dos povos originários.
Além da necessidade de reforçar nossa solidariedade à Revolução Cubana, aos processos na Bolívia e no Equador e à resistência dos povos, a ação dos internacionalistas latino-americanos deve estar concentrada hoje na luta de classes que se desenvolve na Colômbia e na Venezuela.
O futuro da América Latina está sendo jogado nesses dois países de povos irmãos. A derrota do povo venezuelano para a oligarquia e o imperialismo impactaria negativamente a Mesa de Diálogos de Havana. Da mesma forma, a frustração desses diálogos, além de fragilizar e ameaçar o vigoroso e unitário movimento de massas colombiano, também influiria negativamente na Venezuela. Em ambos cenários, a correlação de forças se tornaria desfavorável.
Na Venezuela, segue a ofensiva da direita, valendo-se do desaparecimento físico do Comandante Hugo Chávez e do resultado modesto na vitória legítima de Nicolas Maduro. A simbiose entre as questões colombiana e venezuelana é tão forte que é exatamente neste momento de afirmação de Maduro que Santos recebe o candidato derrotado na Venezuela e ameaça com a integração da Colômbia à OTAN.
É preciso reforçar nossa firme solidariedade ao Presidente Maduro, ao Grande Polo Patriótico Simon Bolivar, em especial ao Partido Comunista de Venezuela, e ao proletariado venezuelano, cujo protagonismo será decisivo para garantir o destravamento do processo bolivariano e seu necessário avanço ao socialismo.
O êxito da Mesa de Diálogos de Havana não é apenas um problema dos colombianos, mas de todos os povos da América Latina e do mundo. Para o desenvolvimento das lutas populares em nosso continente, é preciso radicalizar a revolução bolivariana e desmontar o plano imperialista de atribuir à Colômbia o papel que joga Israel no Oriente Médio.
A oligarquia colombiana quer uma paz dos cemitérios, rápida, sem custos, para criar um ambiente favorável ao desenvolvimento capitalista. Tenta desestabilizar a Venezuela para impor um acordo rebaixado à insurgência. Não nos iludamos com o “pacifismo” da oligarquia e do imperialismo que a dirige. Só recorreram ao diálogo porque fracassou sua guerra contra a insurgência, apesar de todos os imensos recursos militares e financeiros investidos no Plano Colômbia, dos paramilitares, das bases estadunidenses, da assessoria da CIA e da Mossad.
Já os interesses do povo colombiano e das insurgências, que se fundem na mesa de diálogo, são de uma solução política com justiça social e econômica, consolidada através de uma Assembléia Constituinte soberana, com ampla participação popular.
Há dois fatores decisivos para a viabilidade dos entendimentos. Um deles, sem o qual talvez o diálogo não tivesse sequer começado, é o avanço do maior movimento de massas das últimas décadas na América Latina, plural e unitário, congregando milhares de organizações políticas e sociais, que têm na Marcha Patriótica sua maior expressão.
O segundo é a solidariedade internacional a todas as expressões políticas e sociais colombianas progressistas e revolucionárias, nomeadamente à Delegação das Farc em Havana. Mas é preciso respeitar as decisões e o tempo do movimento de massas e da insurgência e combater a ansiedade dos reformistas em pressionar as guerrilhas a se desmilitarizarem, a pretexto de que está atrapalhando a governabilidade e a integração latino-americana. Nossa pressão tem que ser no sentido da ampliação do diálogo e por um necessário cessar fogo bilateral.
Documento do Comitê Central do PCB ao Fórum de São Paulo

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Reflexão de Fidel sobre o 26 de julho


Eu vivi para lutar
Queridos amigos:
NA sexta-feira, 26 de julho se completa o 60º aniversário do assalto ao regimento do Moncada, em Santiago de Cuba e ao quartel Carlos Manuel de Céspedes em Bayamo. Conheço que inúmeras delegações pensam viajar a Cuba para compartir conosco essa data na que nosso pequeno e explorado país decidiu prosseguir a luta inconclusa pela independência da Pátria.
Já então também nosso Movimento estava fortemente influído pelas novas ideias que se debatiam no mundo.
Nada se repete exatamente igual na história. Simón Bolívar, libertador da América, proclamou um dia o desejo de criar na América a maior e mais justa das nações, com capital no istmo do Panamá. Incansável criador e visionário, ele se adiantou mais tarde ao sentenciar que os Estados Unidos pareciam destinados a pragar a América de misérias, em nome da liberdade.
Cuba sofreu, tal como a América do Sul, a América Central e o México, com o território que lhes fosse arrebatado a sangue e fogo pelo insaciável e voraz vizinho do norte, que se apoderou de seu ouro, seu petróleo, suas florestas fabulosas de sequoias, suas melhores terras e suas mais ricas e abundantes águas pesqueiras.
Aliás, não estarei com vocês em Santiago de Cuba, pois devo respeitar a óbvia resistência dos guardiões da saúde. Em troca, posso escrever e transmitir ideias e recordações, que sempre serão úteis, ao menos para aquele que escreve.
Há breves dias, quando observava do meu assento, na parte média de um carro de dupla tração o que tinha sido um velho centro genético para a produção leiteira, pude ler uma brevíssima síntese, de só um parágrafo, do discurso pronunciado em 1º de maio do ano 2000, há mais de 13 anos.
O tempo apagará aquelas palavras em letra negra sobre uma parede branca, pintada com cal.
"Revolução, é lutar com audácia, inteligência e realismo; é não mentir jamais nem violar princípios éticos; é convicção profunda de que não existe força no mundo capaz de esmagar a força da verdade e as ideias. Revolução é unidade, é independência, é lutar por nossos sonhos de justiça para Cuba e para o mundo, que é a base de nosso patriotismo, nosso socialismo e nosso internacionalismo."
Agora se completam 60 anos daquele fato ocorrido em 1953, sem dúvida valente e demonstrativo da capacidade de nosso povo para criar e enfrentar a partir de zero qualquer tarefa. A experiência posterior nos ensinou que teria sido mais seguro começar a luta pelas montanhas, algo que planejávamos fazer se, após tomarmos a fortaleza do Moncada, não pudéssemos resistir a contraofensiva militar da tirania com as armas que ocupássemos em Santiago de Cuba, mais que suficientes para vencer naquela contenda e muito mais rapidamente que o tempo investido depois.
Os 160 homens escolhidos para a operação foram selecionados entre os 1.200 com que contávamos, treinados entre os jovens das antigas províncias da Havana e do leste de Pinar del Río, afiliados a um partido radical da nação cubana, onde ainda o espírito pequeno-burguês incutido pelos donos estrangeiros e seus meios de divulgação, em maior ou menor medida, influíam em todos os recantos do país.
Eu tive o privilégio de estudar, e já na universidade adquiri uma consciência política a partir de zero. Não está demais repetir o que já contei outras vezes, a primeira célula marxista do Movimento a criei eu, juntamente com Abel Santamaría e Jesús Montané, utilizando una biografia de Karl Marx, escrita por Franz Mehring.
O Partido Comunista, integrado por pessoas sérias e consagradas de Cuba, suportava os avatares do movimento comunista internacional. A Revolução reiniciada em 26 de julho recolheu as experiências de nossa história, o espírito abnegado e combativo da classe operária, a inteligência e espírito criativo de nossos escritores e artistas, bem como a capacidade que jazia na mente de nosso pessoal científico, que cresceu como a espuma. Nada se parece hoje ao de ontem. Nós mesmos, aos que o azar nos designou o papel de dirigentes, poderíamos nos envergonhar da ignorância que ainda mostram nossos conhecimentos. No dia em que não aprendamos algo novo será um dia perdido.
O ser humano é produto das leis rigorosas que regem a vida. Desde quando? Desde tempos infinitos Até quando? Até tempos infinitos. As respostas também são.
Por isso, embora não as compartilhe, respeito o direito dos seres humanos a buscarem respostas divinas, perguntas que podem fazer-se, sempre e quando as mesmas não tentem justificar o ódio e não a solidariedade no seio de nossa própria espécie, erro no qual caíram muitos, em um ou outro momento de sua história.
Aquela atrevida tentativa não foi sem dúvida um ato improvisado; admito porém que a partir da experiência acumulada teria sido muito mais realista e mais seguro iniciar aquela luta pelas montanhas da Serra Maestra. Com os 18 fuzis que conseguimos reunir depois do duríssimo revés que sofremos em Alegria de Pío, em parte por inexperiência e o descumprimento das instruções recebidas pelo Movimento em Cuba, e também pela excessiva confiança nossa no poder de fogo dos expedicionários armados com mais de 50 fuzis com mira telescópica, e seu treinamento no tiro. Atentos porém aos voos rasantes dos aviões de combate do inimigo, descuramos a vigilância em terra e nos atacaram em um pequeno matagal, a poucos metros de nós. Nunca mais o inimigo conseguiu surpreender-nos dessa forma.
Nos combates travados depois sempre foi ao avesso e nas ações finais, com menos de 300 combatentes, em 70 dias de incessante luta derrotamos a ofensiva de mais de 10 mil homens de suas forças de elite. Nos combates travados durante dois anos sempre os bombardeiros e caças do inimigo em apenas 20 minutos estavam sobre nós. Ainda, não consta que haja morto um único combatente por essa causa naquela dura luta. Tudo mudou nas décadas seguintes, com a nova tecnologia desenvolvida pelos Estados Unidos e somadas às forças reacionárias na América Latina e o mundo, aliadas a eles. Sempre os povos encontrarão as formas adequadas de luta.
Vocês estarão lá, no palco do primeiro combate.
Quando, depois dos fatos que se consumaram em 26 de julho, um último carro se aproximou para me levar, entrei na parte traseira do carro repleto do pessoal, outro combatente se aproxima pela direita; desço e lhe dou meu assento; o carro parte e fico sozinho. Até o momento em que me recolheram pela primeira vez, em meio da rua, com a espingarda semiautomática Browning e cartuchos calibre 12 com perdigotos, tentava impedir que dois homens usassem uma metralhadora calibre 50 do telhado de um dos pisos do edifício central de comando do amplo campo militar; era o único que podia ser visto do tiroteio generalizado que se escutava.
Os poucos companheiros que com Ramiro Valdés haviam penetrado na primeira barraca despertaram os soldados que ali dormiam e, segundo me explicaram posteriormente, os soldados estavam em roupa interior.
Não pude falar com Abel nem com outros de seu grupo que desde um alto edifício, no fundo do hospital civil, dominavam a parte traseira dos dormitórios. Eu considerava que era absolutamente óbvio para ele o que estava ocorrendo. Talvez ele pensou que eu tinha morrido.
Raúl, que estava com o grupo de Lester Rodríguez, percebia com clareza o que estava ocorrendo e pensava que estávamos mortos. Quando o chefe dessa esquadra decidiu descer, tomaram o elevador, e ao chegarem abaixo, arrebataram o fuzil a um sargento que não fez resistência, nem tampouco os soldados que iam com ele. Assumiu o comando do grupo e organizou a saída do edifício.
Minha preocupação fundamental era nesse momento o grupo de companheiros que supostamente havia ocupado o quartel de Bayamo e não tinha notícia alguma de nós. Da minha parte, contava ainda com suficientes cartuchos e pensava vender bem cara minha, vida, lutando contra os soldados da tirania.
De repente apareceu outro carro: vinha buscar-me; e de novo renasceu em mim a esperança de ajudar os companheiros de Bayamo com uma ação no quartel do Caney.
Vários carros esperavam no fim da avenida onde eu pensava tomar o rumo correto para esse ponto. Mas o próprio companheiro que conduzia o carro que entrou buscar-me não o tomou, seguiu para a casa de onde tínhamos partido na madrugada, ali trocou de roupas. Eu deixei a arma e tomei um fuzil semiautomático calibre 22 com ponta de aço, com um pouco de mais alcance que a espingarda calibre 12 de perdigotos, pus-me alguma roupa e a vários passos dali cruzamos uma cerca de arame farpado, com aproximadamente 15 homens armados, um deles ferido. Outros deixaram suas armas e tomaram os carros tentando buscar uma saída. Comigo ia Jesús Montané e alguns outros chefes. Caminhamos durante horas naquela calorosa tarde pela encosta norte da Gran Piedra, uma elevada montanha que tentaríamos cruzar, para dirigirmo-nos para Realengo 18, um caminho íngreme do qual tinha falado Pablo da Torriente, excelente escritor revolucionário, o qual escreveu que um homem com um fuzil podia resistir ali contra um exército. Mas Pablo morreu na Espanha combatendo na Guerra Civil Espanhola, onde mais ou menos mil cubanos apoiaram esse povo contra o fascismo. Tinha lido sua obra, mas nunca pude falar com ele, já havia viajado à Espanha quando eu estudava no bacharelado.
Nós não pudemos já prosseguir até aquele lugar e permanecíamos ao sul da cordilheira. A zona montanhosa preferida por mim para a luta guerrilheira estava situada entre o santuário do Cobre e a usina açucareira Pilón; portanto, pensei em cruzar até o outro lado da baía de Santiago de Cuba, por um ponto que conhecia desde que estudei no Colégio de Dolores, na cidade onde vocês se reunirão. Boa parte de nosso pequeníssimo grupo estava esgotado pela fome e a fadiga. Um ferido havia sido evacuado e Jesús Montané que apenas podia se manter em pé. Mais dois, com menos responsabilidade e mais saudáveis, marchariam comigo rumo ao ocidente daquelas montanhas. Mas os fatos mais dramáticos e menos esperançadores estavam ainda por chegar. Na tarde, demos instruções ao resto dos companheiros de esconder suas fracas armas em algum lugar da mata e dirigir-se naquela noite à casa confortável de um camponês que morava na borda da estrada que ia de Santiago à praia, que dispunha de gado e tinha comunicação telefônica com a cidade. Sem dúvida foram interceptados pelo exército. O inimigo de todas formas conhecia a área próxima por onde nos movíamos. Antes do amanhecer, uma esquadra da chefatura militar fortemente armada, nos acordou com a ponta de seus fuzis. As veias do pescoço e o rosto daqueles soldados bem alimentados se observavam latir deformados pela excitação. Nós pensávamos que seríamos assassinados, mas nesse momento começou a discussão. Aliás, eu não tinha sido identificado. Após me amarrarem fortemente e me perguntarem o nome, ironicamente lhes dei um dos nomes que usávamos em nossos gracejos. Eu não conseguia compreender que não se dessem conta da verdade. Um deles, com rosto descomposto, gritava que eles eram os defensores da pátria. Com voz forte lhe respondi que eles eram os opressores, tal como os soldados espanhóis na luta de nosso povo pela independência.
O chefe da patrulha era um homem negro que mal conseguia manter o comando. "Não disparem!", gritava constantemente aos soldados.
Em voz mais baixa ele repetia: "As ideias não se matam, as ideias não se matam". Em uma daquelas ocasiões se aproximou de mim e com voz baixa disse e repetiu: "Vocês são muito valentes, rapazes". Ao escutar aquelas palavras eu lhe disse: "Tenente, eu sou Fidel Castro"; e ele respondeu: "Não o diga a ninguém". De novo a sorte se impôs com todas suas forças.
O tenente não era oficial do regimento, tinha outra responsabilidade legal na região do Oriente.
Mais adiante se impõem de novo outros fatos ainda mais importantes.
Aos companheiros que deviam ser desmobilizados eu lhes dei instruções de guardar as armas, e depois os protegeríamos até o ponto onde deviam fazer contato com as pessoas do bispo.
A opinião pública de Santiago de Cuba tinha reagido com energia frente aos hediondos crimes cometidos pelo exército batistiano contra os revolucionários.
Monsenhor Pérez Serantes, bispo de Santiago de Cuba, havia obtido algumas garantias favoráveis a suas gestões, para assegurar o respeito à vida dos revolucionários prisioneiros. O tenente Sarría, ainda, tinha uma batalha a travar contra o comando do regimento que, desta vez, deu a tarefa ao mais conotado esbirro da carnificina feita pelo chefe militar de Santiago de Cuba, ordenando-lhe transferir os detentos para o quartel Moncada.
Pela primeira vez em nossa Pátria, os jovens haviam travado uma luta semelhante, num país que seria, até 1º janeiro de 1959, uma colônia ianque.
Ao chegar à casa do vizinho junto à estreita estrada que une a cidade com a praia Siboney, um pequeno caminhão esperava. Sarría sentou-me entre o motorista e ele. Centenas de metros mais adiante se depararam com o carro do comandante Chaumont que exigiu a entrega do prisioneiro. Como em um filme de ficção científica o tenente discutiu e afirmou que não entregaria o prisioneiro, e em vez disso o apresentaria no tribunal de Santiago de Cuba e não na sede do regimento. Dessa forma, o fato faz recordar uma experiência inusual.
É impossível em tão breve tempo expressar a nossos ilustres visitantes as ideias que suscitam na minha mente os incríveis tempos que estamos vivendo.
Não consigo pensar que dentro de 10 anos, no 70º aniversário, escreveria um livro. Infelizmente ninguém pode assegurar que haverá um 70, um 80, um 90, ou um centéssimo aniversário do Moncada. Na Conferência Internacional sobre o Meio Ambiente, do Rio de Janeiro, eu disse que uma espécie estava em perigo de extinção: o homem. Mas então achava que seria questão de séculos. Agora não sou tão otimista. De todas as formas nada me preocupa; seguirá existindo a vida na insondável dimensão do espaço e o tempo.
Entretanto, tão só digo algo, já que cada dia amanhece para todos os habitantes de Cuba e do mundo:
Os líderes de quaisquer das mais de 200 nações grandes e pequenas, revolucionárias ou no, precisam continuar vivendo. Tão difícil é a tarefa de criar a justiça e o bem-estar, que os líderes de cada país necessitam autoridade, o do contrário se alastrará o caos.
Em dias recentes se tentou caluniar a nossa Revolução, querendo apresentar o chefe de Estado e Governo de Cuba, enganando a Organização das Nações Unidas e a outros chefes de Estado e acusando-o de manter um duplo comportamento.
Não vacilo em assegurar que embora durante anos nos negássemos a subscrever acordos sobre a proibição de tais armas, porque não concordávamos em outorgar essas prerrogativas a nenhum Estado, nunca tentaríamos fabricar uma arma nuclear.
Somos contrários a todas as armas nucleares. Nenhuma nação, grande ou pequena, deve possuir esse instrumento de extermínio, capaz de pôr fim à existência humana no planeta. Quaisquer dos que tais armas possuem, dispõem já de suficientes para criar a catástrofe. Jamais o temor a morrer impediu as guerras em nenhuma parte do planeta. Hoje não só as armas nucleares mas também a mudança climática é o perigo mais iminente que em menos de um século pode tornar impossível a sobrevivência da espécie humana.
Um líder latino-americano e mundial, ao qual desejo render hoje especial tributo pelo que fez a favor de nosso povo e de outros do Caribe e do mundo é Hugo Chávez Frías; ele estaria aqui hoje entre nós, se não tivesse caído em seu valente combate pela vida; ele, tal como nós, não lutou para viver; viveu para lutar.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

DCE Unifesp chama debate sobre as jornadas de Junho de 2013

O que significou a ascensão do movimento em 2013? Qual é o balanço do processo? quais são as perspectivas daqui em diante?

Pensando na importância desse debate, o DCE Unifesp convida Edmilson Costa, economista, professor e militante comunista do PCB; o jornalista José Arbex Jr e a militante da LSR Isabel Keppler para discutirem esses pontos.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Carta de Fidel a Daniel Ortega


Querido Daniel:
  Com muita satisfação acabo de escutar suas excelentes intervenções na 8ª Cúpula de Petrocaribe. Foi muito justo que a sede dessa reunião tenha correspondido à Nicarágua, um país que foi capaz de superar o turbulento golpe do império durante o governo de um dos farsantes mais ignorantes e cínicos, escolhido pela oligarquia dos Estados Unidos.
  Com dinheiro de drogas e de armas, tirou das prisões da Venezuela o principal terrorista do grupo formado pela CIA para destruir em pleno voo o avião cubano de passageiros com 73 pessoas a bordo, entre elas, os jovens cubanos que acabavam de ganhar o Campeonato Centro-americano de esgrima.
  Em vários povos de Nossa América, como Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela, Panamá, México e outros, deixaram suas impressões sangrentas os assassinos pagos pelos Estados Unidos.
  Seria interminável incluir nesta mensagem a enorme quantidade de crimes e roubos que no resto do mundo levaram a cabo os governos e as forças repressivas do império e seus cúmplices bastardos.
  A você Daniel, e a Rosário, desejo parabenizar pela formidável reunião de hoje.
  Não posso deixar de mencionar, um dia como este, a voz sincera, valente e clara de Nicolás Maduro, um homem de pura estirpe operária, modesto, honrado e pobre, que nunca quis cargo algum e hoje se entrega a cumprir o dever posto em suas mãos pelo inesquecível Hugo Chávez, líder da Revolução Bolivariana, quando a casualidade da vida impediu que continuasse dedicando cada minuto, cada segundo, ao que hoje constitui o mais nobre sonho da humanidade.
  Maduro tem demonstrado o talento, integridade e energia que o grande líder supôs nele.
  O talento brilha também entre os líderes que se reuniram em Manágua. Estou seguro que eles junto à Pátria de Bolívar e associados a ela, lutam pelo direito de seus povos à saúde, à educação, ao desenvolvimento e ao bem-estar material e moral.
  Não posso concluir estas palavras sem expressar minha simpatia por Rafael Correa, Presidente do Equador, que neste exato momento, quando o império ameaça com guerras e o possível uso de armas sofisticadas contra a República Popular da China e a Federação Russa - duas poderosas nações que nunca foram potências coloniais e hoje são vítimas de atitudes ameaçadoras dos Estados Unidos - repudiou energicamente as ameaças do Presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, caso concedesse o asilo político pedido ao Equador por Edward Snowden.
  Um comunicado da Presidência da República expressa: "O Equador não aceita pressões nem ameaças de ninguém, e não negocia com os princípios nem os submete a interesses mercantis por mais importantes que sejam".
  Felicidades a todos, Daniel. Para você e Rosário um forte abraço.
  Até a vitória sempre! Como diria nosso Comandante Hugo Chávez.