quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MÃO ESQUERDA DA DIREITA

Em função de um artigo do site do PSTU, em que caracteriza novamente Cuba como uma ditadura capitalista, republicamos artigo do CC do PCB de 2010, em que responde a um antigo artigo da LIT-QI com o mesmo teor.


Defender a Revolução Cubana é uma questão de princípio
(Nota Política do PCB)
Encontra-se na página eletrônica do PSTU uma nota assinada pela autodenominada LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), sob o título “A morte de Orlando Zapata e as liberdades em Cuba”.
Esta “liga” é a mesma que ajudou a burguesia venezuelana a dizer não, no referendo constitucional convocado por Chávez, em 2008, e que recomendou abstenção no referendo revogatório convocado pelo Presidente boliviano, em 2009, sob a consigna “nem Evo nem oligarquia”, fazendo o jogo dos separatistas de Santa Cruz de la Sierra, que agem sob o financiamento e as ordens da embaixada norte-americana, da USAID e da CIA.
No exato momento em que a mídia hegemônica mundial promove uma torpe e cínica campanha contra Cuba, esta “internacional” de fachada objetivamente se associa ao imperialismo para combater a Revolução Socialista Cubana, que vem de completar históricos 50 anos de avanços políticos e sociais e de resistência ao cruel bloqueio que lhe movem os Estados Unidos.
Apesar da débâcle da União Soviética e das demais experiências de construção do socialismo no Leste Europeu, apesar do bloqueio e das incontáveis provocações que lhe move o imperialismo, Cuba mantém a mais efetiva democracia popular direta do mundo e conquistas sociais inimagináveis em qualquer país capitalista. Não existe nenhum país mais solidário e internacionalista do que Cuba, que forma estudantes do mundo todo e mantém em muitos países periféricos, sobretudo na América Latina, profissionais das áreas da saúde da família e da educação, com destaque para a luta contra o analfabetismo, já erradicado na Bolívia e na Venezuela.
A LIT-QI usa contra Cuba uma linguagem de esquerda que, aos menos avisados, pode soar como revolucionária. Por isso, seus pronunciamentos são funcionais ao imperialismo, para tentar passar ao mundo a impressão de que o governo cubano está isolado, ou seja, não é só a direita que o combate.
Num malabarismo teórico desonesto, a nota afirma que em Cuba há uma “ditadura capitalista” que precisa ser derrubada em aliança com a burguesia cubana de Miami! Compara o regime cubano com as ditaduras militares que marcaram o Cone Sul nos anos 1960/1980. A má-fé e a manipulação ficam evidentes quando agora defendem como correta a política de frente democrática contra aquelas ditaduras, política que combatiam ferozmente à época.
Pode ser até compreensível a associação de grupos como este, na Polônia nos anos 80, ao “Solidarinosc” e a seu líder, Lech Walesa, mesmo sendo flagrante a direção da CIA e do Vaticano. Em função dos erros na construção do socialismo, ali havia um movimento de massas dissidente, com peso na classe operária. Mas em Cuba, a “dissidência” é dirigida por organizações burguesas, financiadas pelos Estados Unidos, inclusive as que são mencionadas no texto da autoproclamada internacional, que não tem qualquer peso político naquele país. A única alternativa ao atual sistema cubano é o imperialismo, através da burguesia de Miami.
Este tipo de orientação só se presta a fomentar em alguns países o surgimento de organizações pequeno-burguesa, messiânicas e sectárias. Como seitas, se reivindicam vocacionados para dirigir as massas e a revolução socialista. Quando não os dirigem, consideram que todos os movimentos ou processos de mudanças vivem “crise de direção”.
No momento em que o imperialismo, em função da crise de seu sistema, assume uma agressividade inaudita nas últimas décadas, não conciliaremos com essas posições pequeno-burguesas. Classificar a Revolução Cubana de “ditadura capitalista” é fazer o jogo da contra-revolução.
Por isso, o PCB terá imensas dificuldades em se relacionar com organizações políticas que venham a defender em nosso país orientações deste tipo. Mesmo que subjetivamente se percebam revolucionários, estes grupos objetivamente fazem o jogo do imperialismo, funcionando como a sua mão esquerda. O deputado Jair Bolsonaro, líder da ultradireita brasileira, também está divulgando um manifesto com a mesma linha política: “irrestrito apoio e solidariedade aos presos políticos que, em Cuba, lutam por liberdade e democracia naquele país”.
A posição que o Comitê Central do PCB aqui expõe não tem qualquer sentido antitrotskista, só porque aquela liga se reivindica, arrogantemente, a única referência mundial contemporânea do legado de Trotsky. A grande maioria das organizações e personalidades que têm a mesma referência teórica, no Brasil e no mundo, combatem veementemente as posições internacionais deste grupo, que só trazem prejuízos à luta do proletariado.
O PCB, que assume todos os seus 88 anos de vida, já superou o maniqueísmo reducionista, procurando fazer, nos dias de hoje, um balanço do socialismo com base nos fundamentos teóricos que nos legaram Marx, Engels, Lênin e outros intelectuais orgânicos e não em torno de culto a personalidades, sejam quais forem.
O PCB fica com Cuba e o socialismo!
O PCB fica contra o imperialismo!
PCB – Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central – abril de 2010

domingo, 2 de setembro de 2012

ANNCOL publica o seguinte acordo entre a guerrilha das FARC-EP e os representantes do governo colombiano



imagemCrédito: 2.bp.blogspot
Por considerá-lo de suma importância, a redação de ANNCOL publica o seguinte acordo entre a guerrilha das FARC-EP e os representantes do governo do presidente Juan Manuel Santos.
Acordo Geral para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura
Os representantes do governo de República da Colômbia, governo nacional e as Forças Armadas da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP):
Como resultado do encontro exploratório realizado em Havana, Cuba, entre 23 de fevereiro e agosto de 2012, que contou com a participação do governo da República de Cuba e do governo da Noruega como garantidores, e com o apoio do governo da República Bolivariana da Venezuela como facilitador de logística e acompanhante.
Com a decisão mútua de colocar fim ao conflito como condição essencial para a construção da paz estável e duradoura, atendendo o clamor pela paz e reconhecendo que:
A construção da paz é um assunto da sociedade em seu conjunto que requer a participação de todos, sem distinção; que o respeito aos direitos humanos em todos os cantos do território nacional é um objetivo do Estado que deve promovê-lo; o desenvolvimento econômico com justiça social e em harmonia com o meio ambiente é garantia de paz e progresso;
O desenvolvimento social com equidade e bem-estar, incluindo as grandes maiorias, permite crescer como país; uma Colômbia em paz terá papel ativo e soberano na paz e no desenvolvimento regional e mundial. É importante ampliar a democracia como condição para alcançar bases sólidas para a paz; com a disposição total do governo nacional e das FARC-EP de chegar a um acordo e o convite a toda a sociedade colombiana, assim como aos organismos de integração regional e à Comunidade Internacional, a acompanhar este processo;
Acordamos:
I
Iniciar conversações diretas e ininterruptas sobre os pontos da agenda aqui estabelecida com a finalidade de alcançar um acordo final para o término do conflito, que contribua para a construção da paz estável e duradoura.
II
Estabelecer um conselho de conversações que se instalará publicamente, um mês depois do anúncio público, em Oslo, Noruega, e cuja sede principal será Havana, Cuba. O conselho poderá se reunir em outros países.
III
Garantir a efetividade do processo e concluir o trabalho sobre os pontos da agenda de maneira expedita e no menor tempo possível, para cumprir com as expectativas da sociedade sobre o recente acordo. Em todo caso, a duração estará sujeita a avaliações periódicas dos avanços.
IV
Desenvolver as conversações com o apoio dos governos de Cuba e Noruega como garantidores e os governos da Venezuela e do Chile como acompanhantes. De acordo com as necessidades do processo, será possível, de comum acordo, convidar outros países.
V
A seguinte agenda:
1.- Política de desenvolvimento agrário integral.
O desenvolvimento agrário integral é determinante para impulsionar a integração das regiões e o desenvolvimento social, econômico e equitativo do país.
Acesso e uso da terra
a.- Terras improdutivas. Formalização da propriedade. Fronteira agrícola. Proteção de zonas de reserva.
b.- Programa de desenvolvimento com enfoque territorial.
c.- Infraestrutura e adequação de terras.
d.- Desenvolvimento social: saúde, educação, erradicação da pobreza.
f.- Estímulo à produção agropecuária e à economia solidária e cooperativa. Assistência técnica. Subsídios. Créditos. Geração de renda. Mercado. Formalização trabalhista.
g.- Sistema de segurança alimentar.
2.- Participação política.
a.- Direitos e garantias para o exercício da oposição política em geral e em particular para os novos movimentos que surjam com a assinatura do acordo final. Acesso aos meios de comunicação.
b.- Mecanismos democráticos de participação cidadã, incluídos os de participação direta nos diferentes níveis e diversos temas.
c.- Medidas efetivas para a promoção de maior participação na política nacional, regional e local de todos os setores, incluindo a população mais vulnerável, igualdade de condições e com garantias de segurança.
3.- Fim do Conflito
Processo integral e simultâneo que implica:
a.- Cessar de fogo e de hostilidade, bilateral e definitivo.
b.- Deposição de armas. Reincorporação das FARC-EP à vida civil – no âmbito econômico, social e político –, de acordo com os seus interesses.
c.- O Governo Nacional coordenará a revisão da situação das pessoas privadas, processadas ou condenadas por pertencer ou colaborar com as FARC-EP.
d.- Paralelamente, o Governo Nacional intensificará o combate para acabar com as organizações criminosas e suas redes de apoio, incluindo a luta contra a corrupção e a impunidade, em particular, contra qualquer organização responsável de homicídios e massacres ou que atente contra os defensores dos direitos humanos, movimento sociais ou movimentos políticos.
f.- O Governo Nacional revisará e fará as reformas e os ajustes institucionais necessários para fazer frente aos desafios da construção da paz.
g.- Garantias de segurança.
h. No marco do estabelecido no ponto cinco (Vítimas) deste acordo, se esclarecerá, entre outros, o fenômeno do paramilitarismo.
A assinatura do acordo final inicia este processo, o qual deve desenvolver-se em um tempo razoável acordado pelas partes.
4.- Solução para o problema das Drogas Ilícitas.
a.- Programa de substituição de cultivos ilícitos. Planos abrangentes de participação das comunidades na concepção, execução e avaliação dos programas de substituição e recuperação ambiental das áreas afetadas pelos cultivos ilícitos.
b.- Programas de prevenção do consumo e saúde pública.
c.- Solução do fenômeno de produção do consumo e a saúde pública.
5. Vítimas.
Ressarcir as vítimas está no centro do acordo Governo Nacional-FARC-EP. Nesse sentido, se tratarão:
a.- Direitos Humanos das vítimas.
b. Verdade.
6.- Implementação, verificação e referendo.
A assinatura do acordo final dá início à implementação de todos os pontos acordados.
a.- Mecanismos de implementação e verificação.
- Sistema de implementação. Dando especial atenção às regiões.
- Comissão de acompanhamento e verificação.
- Mecanismos de resolução de diferenças. Estes mecanismos terão capacidade e poder de execução e estarão confirmadas por representantes das partes e da sociedade civil, segundo o caso.
b.- Acompanhamento internacional.
c.- Cronograma.
d. Orçamento.
e. Ferramenta de difusão e comunicação.
f. Mecanismos de referendo dos acordos.
As seguintes regras de funcionamento
1.- Nas sessões do conselho participarão até 10 pessoas por delegação, dos quais até 5 serão plenipotenciários, que serão os respectivos porta-vozes. Cada delegação será composta por até 30 representantes.
2.- A fim de contribuir com o desenvolvimento do processo, poderão ser realizadas consultas a especialistas sobre os temas da agenda, uma vez que se faça necessário.
3.- Para garantir a transparência do processo, o conselho elaborará informes periódicos.
4.- Será estabelecido um mecanismo para levar à conhecimento público os avanços do conselho. As discussões do conselho não se farão públicas.
5.- Será implementada uma estratégia de difusão eficaz.
6.- Para garantir a mais ampla participação possível, será estabelecido um mecanismo de recepção de propostas de cidadãos e organizações sobre os pontos da agenda, por meios físicos ou eletrônicos. De comum acordo e em tempo determinado, o conselho poderá fazer consultas diretas e receber propostas sobre os cinco pontos ou delegar a um terceiro a organização de espaços de participação.
7.- O Governo Nacional garantirá os recursos necessários para o funcionamento do conselho, que serão administrados de maneira eficaz e transparente.
8.- O conselho contará com a tecnologia necessária para adiantar o processo.
9.- As conversação serão iniciadas com o ponto Política de Desenvolvimento Agrário Integral e seguirão conforme a ordem decidida pelo conselho.
10.- As conversações se darão sob o princípio que nada está acordado até que tudo esteja acordado.
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

FARC-EP: Há rumores... Será a Paz à vista?



imagemCrédito: Eltiempo
José Antonio Gutiérrez D.
Rebelión
As negociações de paz voltaram, com a bênção de uma boa parte do establishment, para a agenda política colombiana. A intriga de Uribe, que denunciou a aproximação do governo com as FARC-EP em Cuba, procurando assim canalizar apoio ao seu projeto de extrema-direita[1], foi suficiente para gerar uma onda de opinião favorável a essas aproximações. O tiro saiu pela culatra. Santos, diante do assunto, portou-se com grande sigilo, mas na segunda-feira a TeleSur já deu a notícia quente: as FARC-EP assinaram o início de um acordo de paz com o governo colombiano[2]. As expectativas são altas quando há apenas alguns dias Gabino, o comandante máximo do ELN, disse estar disposto a participar de uma iniciativa de diálogo da qual já fazem parte as FARC-EP [3]. É uma declaração de grande importância, uma vez que as lições do passado dizem que não seria possível hoje a negociação em paralelo com as distintas expressões do movimento guerrilheiro colombiano. Enquanto escrevo estas notas, aguardamos o anúncio oficial de Juan Manuel Santos a respeito.
Esta aproximação não é gratuita e nem surge de uma boa vontade do mandatário: é óbvio que a tese do "fim do fim" carece de sustentação e que o Plano Colômbia chegou ao limite. A insurgência tem respondido ao desafio colocado pelo avanço do militarismo e um novo ciclo de lutas sociais ameaça a deterioração da situação política no médio prazo, em um nível que será difícil de controlar para a oligarquia. A cena política parece, por vezes, perigosamente volátil. Além disso, não surpreende a vontade da insurgência para se aproximar da mesa de negociação: primeiro, porque é uma insurgência que vem tentando, há 30 anos, em todos os tons possíveis, a solução política para o conflito social e armado, e por outra parte porque a insurgência tem melhorado muito nos últimos anos a sua força, não só militarmente mas, acima de tudo, no campo político.
Cuidado com as ilusões
Ainda que a assinatura deste acordo seja um desenvolvimento positivo, não podemos ser excessivamente otimistas, nem muito menos triunfalistas, pensando que a “paz”, por si só, representará um triunfo para os setores populares e suas demandas históricas, bloqueadas a sangue e fogo por mais de meio século, a partir do Estado. Há de se ter plena consciência de que o caminho até um eventual processo de negociações está repleto de contratempos, assim como de que existem diferenças substanciais, de fundo, a respeito da questão do que se pode esperar destas negociações ou o que se entende por esta palavra na boca de todos: “paz”. Há de se ter plena consciência de que a oligarquia com a qual se negocia é a mais sanguinária do continente e que não entra para negociar por uma súbita mudança de convicção
Enquanto o conjunto das organizações sociais pleiteia que a paz é muito mais do que o cessar fogo, mas consistiria na resolução coletiva de problemas estruturais que originam a violência, para o Estado segue sendo um tema de desmobilização, reinserção e a discussão de formalidades jurídicas relacionadas [4]. Santos quer “uma ‘paz express’, sumária, mecânica. A quer clandestina, sem a presença da multidão, sem sociedade civil, sem organizações populares. A quer sem reformas, sem mudanças de nenhuma espécie na sociedade nacional. Para ele é suficiente que seja com o marco legal que se aprovou recentemente e talvez ainda com as regulamentações que com dificuldade poderão tramitar em um Senado hostil diante do iminente processo eleitoral” [5].
Santos sustentou uma posição ambígua ante o tema da paz: por um lado, diz ter as chaves da paz, que um dia foi perdida e no outro dia apareceram numa caixa forte; por outro lado, aprofunda a guerra suja, mediante o fortalecimento da militarização das comunidades rurais (os chamados planos de Consolidação Territorial); mediante o fortalecimento dos golpes às instâncias médias da insurgência e uma estratégia de judicialização das “redes de apoio” do movimento guerrilheiro, que submete o poder judicial às necessidades do projeto contra-insurgente (essência do Plano Espada de Honra); e por último, mediante o fortalecimento da impunidade para as ações das forças armadas dentro de uma estratégia sistemática de terrorismo de Estado (a ressurreição do chamado foro militar, acordo ao qual chegaram Santos e Uribe recentemente).
A partir da perspectiva santista, a paz ou a guerra não são senão estratégias para impor um insustentável projeto econômico-social neoliberal, baseado no Plano de (Sub) Desenvolvimento Nacional do santismo, cujos pilares são a agroindústria e a mineração. Se se conseguirá converter esta oportunidade para abrir negociações em um espaço a partir do qual se possa impulsionar as transformações sociais que demanda o povo colombiano, dependerá da capacidade de organização e mobilização do próprio povo, e tal coisa acontecerá apesar do Estado, não graças a ele.
Paz? Que paz?
Há uma coisa que o bloco dominante não perde de vista. É que a negociação com a insurgência hoje não é o mesmo que ocorria nas negociações de 1990-1994. Aqui não existem organizações cujo espectro ideológico seja um liberalismo radicalizado; não estamos ante grupos reformistas em armas, cuja direção está assumida pelos "bacanas", nem as demandas políticas dessas organizações insurgentes serão satisfeitas com promessas de reformas constitucionais cosméticas, nem com garantias generosas para desmobilizar-se, nem elas aceitarão uma "agenda restrita". Estamos diante de movimentos revolucionários que representam os mais pobres dos mais pobres. Estamos diante de movimentos guerrilheiros que representam as aspirações históricas deste campesinato que sempre ficou por baixo em todas as iniciativas de "paz". Estamos diante de insurgentes cujos pés se confundem com a terra que pisam. Estamos diante de quem não tinha nada e merece tudo.
Tampouco estamos diante de grupos derrotados militarmente, como os que se mobilizaram em 1990-1994, mas estamos diante de organizações fortemente enraizadas em amplas regiões do país, com capacidade operacional em quase todo o território nacional, com uma renovada capacidade para bater as forças armadas de Estado; em amplas regiões do país a insurgência é uma realidade política inescapável, um autêntico duplo poder que é legitimado em outras comunidades pisoteadas pela consolidação territorial do Exército e o flagelo paramilitar. Ainda que se queira convencer do contrário alguns comentaristas [6], se a insurgência negocia hoje é porque pode negociar, porque tem força e capacidade para fazê-lo. E bem sabem na Casa de Nariño que a desmobilização e a rendição desejadas pelo uribismo não são uma opção política.
Isto reconhece um artigo de 25 de agosto do El Espectador:
"É evidente que as FARC não são um parceiro fácil. Querem reforma agrária, que seja com base na Lei de Terras e na Lei de Vítimas; pretendem que se discuta a forma de contratação com multinacionais de petróleo e mineração; requerem espaços políticos para avançar para um contexto mais democrático e acreditam que a paz hoje também envolve a gestão adequada do meio ambiente. O resto são detalhes formais,  como o inamovível de que, se houver uma negociação, deve ser feita em território nacional". [7]
Resulta apenas óbvio que o discurso das FARC-EP como uma organização “terrorista”, “bandoleira”, “convertida em cartel do narcotráfico”, “lumpenizada”, é insustentável, pura propaganda, ainda mesmo quando se possa questionar certos métodos que utiliza. Ninguém em sã consciência pode negar que todos os aspectos que a insurgência reclama (terras, recursos naturais, democracia, meio ambiente, educação, saúde, seguridade social, etc.) sejam temas de crucial importância, onde as políticas do governo fazem água e que requerem a mais ampla participação do conjunto da sociedade. Que a insurgência tome estes temas e os converta em elementos indissociáveis do avanço de qualquer tentativa de superar o conflito social e armado de raiz, é um autêntico pesadelo para os setores mais recalcitrantes da oligarquia. Não é a suposta bandoleirização da insurgência, tão alardeada pelos meios de comunicação oficiais, que aterroriza a oligarquia, mas seu caráter político e revolucionário, e sua capacidade de articular as demandas de diferentes setores sociais.
É por isso que o bloco dominante sabe que a grande luta que vem a seguir é no plano político, mais ainda do que no militar. Porta-vozes do empresariado têm se pronunciado a favor de uma agenda de negociação restrita moldada nas negociações com o M-19, ou seja, uma negociação sem mudanças estruturais [8]. Eles esperam sair das negociações com o menor número de concessões e reformas possível, e sabem que isso os coloca em contradição não só com a insurgência, mas com um setor importante do povo organizado. Para isso, temos de estar alertas para o recrudescimento da guerra suja e dos ataques contra as organizações populares que lutam pela mudança social e que tradicionalmente têm acompanhado os processos de diálogo na Colômbia.
Esgota-se, momentaneamente, a estratégia militarista
Contudo, ainda que esta oligarquia tenha muito receio de abrir as portas a negociações que, com toda certeza, terminarão em um debate nacional sobre projetos antagônicos de país, sabe também que a persistência no rumo belicista é colocar a corda no pescoço; a insurgência se fortalece e existe hoje uma escalada do conflito social e da mobilização popular em todo o país que, se persistir, poderia ameaçar seriamente a hegemonia do bloco dominante. O país se encontra à beira de um novo ciclo de violência precipitado pelo deslocamento forçado, a desapropriação violenta de camponeses e comunidades, a penetração da mineração e da agroindústria em todo o país. A violência com a qual se vem impondo o modelo santificado no Plano de (Sub) Desenvolvimento Nacional de Santos gera, necessariamente, resistência. E a resistência, em um país como a Colômbia, dá-se de múltiplas formas, sendo caldo de cultivo para uma situação potencialmente explosiva.
Negociar com a insurgência pode servir a oligarquia, em suas mais otimistas projeções, para alcançar a paz neoliberal que permita o avanço do projeto neoliberal agro-extrativista, reduzindo os níveis de resistência, ao menos, dos projetos insurgentes. Em uma pesquisa feita com empresários colombianos pela Fundação Ideias Para a Paz, "A grande maioria deixou claro que descarta uma agenda de negociações que inclui reformas estruturais e com múltiplos atores, como ocorreu no Caguán. Eles preferem uma restrição ao desarmamento, a desmobilização e reintegração onde o Estado pode ser ‘generoso’. "[9]. Ou seja, a paz para facilitar a exploração das massas e do meio ambiente colombiano.
Nas projeções menos otimistas da oligarquia, as negociações serviriam ao menos para ganhar tempo e preparar-se para enfrentar, de maneira mais letal e eficiente, o seguinte ciclo de violência que paira no horizonte. Tal era a verdadeira intenção do governo Pastrana ao enfrentar o processo de negociações de San Vicente del Caguán. O próprio Pastrana, que falava de paz enquanto negociava o Plano Colômbia e dava altas somas à ferramenta paramilitar do Estado, cinicamente admitiu o seguinte em um artigo de dez anos após o colapso das conversações de Caguán:
“O Plano Colômbia (...) nos permitiu sentarmos na mesa de diálogo em desvantagem inicial, praticamente desarmados, com a certeza de que se haveria de concluir, seja com êxito ou fracasso, com um Estado armado até os dentes e pronto, como nunca antes, tanto para a guerra como para a paz”. [10]
Em ambos os casos, seja que a oligarquia busque pacificar o país sem mudanças substanciais, ou seja que procurem ganhar tempo para continuar com o negócio da guerra, qualquer paz que possa ser alcançada será efêmera, é apenas a calma que precede a tempestade violenta que recairá sobre as costas dos excluídos, dos despossuídos, dos violentados​, dos oprimidos. E são eles que devem ser mobilizados para impor a necessária vontade de mudanças estruturais e de fundo: o vento sopra a seu favor no momento, pois a mobilização popular está crescendo e há uma tendência saudável para a unidade dos que lutam. Estes dois fatores favorecem a possibilidade de que o bloco popular converta-se num fator de peso nas negociações, especialmente quando o bloco dominante tem contradições internas que, sem ser antagônicas, são bastante agudas e vão gerar uma crise de hegemonia.
Os "inimigos (não tão) submetidos" Santoyo e as contradições interburguesas
A hegemonia do bloco dominante, consolidada durante quase uma década de Plano Colômbia e da mal denominada "Segurança Democrática" (de que Santos era um continuador), é afetada não só pela crescente mobilização e descontentamento popular, mas também pela erosão da unidade do bloco dominante. Cada vez mais se tornam mais freqüentes os confrontos entre o uribismo entrincheirado entre os elementos inflamados das forças armadas, dos agricultores, da narcoburguesía e do caudilhismo, todos os quais vêem na guerra o seu grande negócio, e o santismo, que representa os interesses supremos do capital transnacional, buscando a "paz" para abrir caminho para seus negócios e investimentos na área agro-extrativista. Embora estes setores também tenham recorrido ao paramilitarismo para assegurar a "confiança dos investidores" e a desapropriação violenta para enriquecer, privilegiariam uma forma menos dispendiosa para garantir seus lucros, colocando-os em uma situação um tanto diferente com relação aos setores da burguesia que dependem, estruturalmente, da desapropriação violenta para acumulação de capital.
O colunista Alfredo Molano, há uns 2 meses, analisava esta contradição no bloco dominante e o impacto que teria sobre um eventual processo de negociação:
"Ao presidente fica mais fácil negociar com os guerrilheiros do que com os militares, empresários e caudilhos para terminar derrotado em outro Caguán. Foi essa carência o verdadeiro obstáculo para as negociações entre Pastrana e Marulanda. O erro do ex-presidente não foi a liberação de 30.000 km, mas foi não ter negociado com o establishment e com os militares o preço que essas duas poderosas forças estavam dispostas a pagar ". [11]
Enquanto se aprofunda a crise de hegemonia do bloco de poder, e enquanto avançam as lutas populares, assim como a insurgência, seria insensato para Santos não reagir diante da agitação que o uribismo leva adiante nos quartéis e seu trabalho de polarização no interior das estruturas de poder. Nem Santos, nem os capitalistas que representa, nem o imperialismo que o respalda, aceitarão que Uribe se converta em um fator de desestabilização. Eles todos suportaram Uribe quando ele serviu e ajudou a reconstruir a cambaleante hegemonia de uma oligarquia decadente. Mas nem o imperialismo e nem a oligarquia têm amigos, mas interesses apenas. No momento em que deixa de cumprir esse papel, Uribe se torna um "descartável".
Neste sentido deve-se compreender o encurralamento geral a que a justiça  submete o círculo interno de Uribe, com a condenação de Rito Alejo, os sinais crescentes de paramilitares como Mancuso entre seus vínculos com a AUC, os problemas dos familiares narcos do ex-presidente e a deportação do Geral Santoyo.
Não é que nós estejamos percebendo agora a extensão da podridão no ambiente em torno de Uribe, algo de que se sabe há algum tempo, mas agora o contexto é diferente. No caso Santoyo em particular, parece haver um elemento importante contra Uribe: se alguém pode comprometê-lo com o tráfico de drogas e os paramilitares, é ele. Já começou a falar de alguns generais, incluindo o braço direito de Uribe, Mario Montoya, e ameaçou "abrir o bico” sobre os políticos [12]. Será Santoyo uma cartada do santismo para tentar colocar Uribe sob controle? Haverá de se esperar a reação de Uribe ao anúncio de paz, o que provavelmente fará através do Twitter. Porém, se continuar jogando pela desestabilização, sua queda será, provavelmente, uma questão de tempo.
Envolver o povo na negociação
Ainda quando devemos ver as negociações sem ingenuidade e com bastante realismo, é indubitável que o atual momento abre um potencial enorme para superar as condições estruturais que levaram ao conflito social e armado na Colômbia, e que vem alimentando este modelo de capitalismo mafioso que acumula em função de desapropriações violentas. Tanto Santos como os empresários rechaçam ou relutam em aceitar a participação de "múltiplos atores" no processo de paz. Isto é, procuram excluir o povo da resolução de um conflito que o afeta diretamente, deixando intactas as condições para o início da nova onda de violência, como as que cronicamente afligem as sociedades do pós-conflito da América Central. Embora o movimento de guerrilha na Colômbia seja parte de um processo acumulativo importante de lutas populares na Colômbia, e mesmo que tenha um nível de legitimidade muito importante em muitas regiões do país, é claro que nem a insurgência, nem qualquer expressão do movimento popular colombiano pode assumir a representação exclusiva do movimento popular.
A insurgência tem se manifestado muitas vezes de acordo com esta posição, o que eles vêem como consistente em relação com seus postulados históricos. Em resposta ao professor Medófilo Medina, o comandante máximo das FARC-EP, Timoleón Jimenez, explica o significado da luta política, "para o poder do povo", desta guerrilha comunista: "Nem o Programa  Agrário, nem em qualquer documento posterior das FARC até a data de hoje, jamais se colocou que nossa meta como organização política e militar seja tomar o poder depois de vencer em uma guerra de posições o Exército colombiano, tal como se repete de vez em quando para todos aqueles que insistem em nos fazer reconhecer a impossibilidade desse objectivo. Desde o nosso nascimento, as FARC temos concebido o acesso ao poder como uma questão das multidões em agitação e movimento. "[13]
Nesta linha, o citado artigo do El Espectador coloca claramente, como um problema da negociação, que:
"Já se sabe anteriormente que outro dos aspectos difíceis é a agenda das FARC. A este respeito, é claro que, em princípio, a pretensão da guerrilha é envolver a sociedade civil na questão. Ou seja, para que os movimentos sociais, a academia e as minorias políticas tenham a mesma voz que possam ter os grupos econômicos. Assim, o movimento chamado de Marcha Patriótica pode tornar-se protagonista. Trata-se da criação de espaços políticos onde a discussão não se limita apenas ao impasse entre o governo e os guerrilheiros. (...) A respeito de Cauca as FARC têm um pensamento claro: se começa  um processo de paz com o governo, os indígenas desse departamento devem ter uma  voz especial na mesa de negociação "[14].
É necessário que as pessoas afirmem e exijam o seu direito de tomar parte neste processo e transformá-lo em um diálogo nacional em que se discutam os projetos de país que estão confrontadas em um conflito que não é só armado, mas principalmente social. Sobre a solução política, a mesma resposta do comandante Timoleón Jimenez afirma que:
"Não pode ser entendida senão como uma reafirmação da ordem existente. Não se trata de modo algum de guerrilheiros arrependidos e desacreditados que entregam suas armas e se submetem ao escárnio midiático e jurídico, para em seguida, com a espada a um fio das suas cabeças, ingressarem no mercado da política partidária a fim de fazer coro com as mentiras oficiais. Do que se trata é reconstruir as regras da democracia para que se debatam ideias e programas em igualdade de oportunidades. Sem o risco de ser assassinado ao chegar em casa. Falo dos desaparecidos e torturados por uma mão misteriosa que já se sabe que existe, como aquelas forças obscuras que exterminaram a União Patriótica sob o olhar impassível da classe política colombiana. É justo que se abra um debate público sobre estas questões, que se possa falar destes temas sem ser imediatamente oprimido pelo conjunto dos monopólios de informação".
Há de se colocar o povo em meio às negociações, mesmo que a oligarquia fique incomodada em ver tantos maltrapilhos ocupando o debate político, terreno reservado por dois longos séculos a uma elite republicana dourada, a linhagens moribundas e decadentes cujos nomes se repetem uma e outra vez na ocupação dos cargos de poder. Trata-se de ocupar estes espaços, de conduzir o debate político sobre a paz e a guerra,  sobre o modelo político e econômico para todas as praças públicas da Colômbia, a todas as faculdades e escolas, em todos os locais de trabalho, minas e vilas rurais. Deve-se usar este debate para promover um projeto de país para coletar e harmonizar as demandas mais urgentes de todos os setores populares que hoje lutam contra o modelo  econômico de morte e pilhagem imposto pelos de cima.
O anúncio do início deste novo caminho em busca de uma solução política não deve significar que se tenha que desmobilizar o povo. Muito pelo contrário, indica que é hora de o povo sair para lutar ainda mais decisivamente, que se aprofunde a mobilização social e se reforce os espaços da unidade do povo em luta. Devemos integrar, mais do que nunca, expressões como a Marcha Patriótica, para evitar um novo genocídio e proteger os espaços a partir dos quais o povo se mobiliza e faz ouvir sua voz e seu compromisso com uma nova sociedade. Nós apoiamos as lutas dos camponeses, operários, presos políticos, que agora estão em desobediência e greves em todo o país. Exigimos o fim da estigmatização, perseguição e detenção de ativistas sociais. Devemos exigir a suspensão da designação de "organizações terroristas" para os insurgentes, a fim de garantir as condições ideais para o diálogo franco e livre. Devemos exigir que este acordo inicial  avance para um cessar-fogo bilateral e para o desmantelamento dos grupos paramilitares, como forma de proteger a vida e a integridade das pessoas que hoje devem se converter em atores e protagonistas deste processo.
Somente a mobilização popular pode assegurar que o processo de paz que está no horizonte possa ser concluído com as transformações estruturais que reclamam amplos setores da Colômbia. E à luz dos enormes desafios colocados pelo poder, esta luta pela paz não será nada menos do que uma luta abertamente revolucionária. É hora de falar claramente sobre o caráter revolucionário desta luta, que envolve o confronto de um modelo baseado na exploração, pilhagem, morte e exclusão, com um modelo que cresce no coração do povo, baseado na inclusão, no respeito às comunidades e ao meio ambiente, na sustentabilidade para proteger a vida, na dignidade e na auto-determinação das pessoas. Não é nada mais nada menos do que o tipo de Colômbia que se quer construir o que está em jogo.
Tradução: PCB (Partido Comunista Brasileiro)

Tropas especiais de países da OTAN norteiam a guerra civil na Síria



imagemCrédito: 3.bp.blogspot
(Sunday Times, Bild e RMC denunciam)
As reportagens do jornal britânico Sunday Times, do alemão Bild am Sonntag e da radio francês Bfmtv-Rmcrevelaram que os governos da Grã Bretanha, da Alemanha e da França, autorizaram a intervenção de seus serviços especiais para sustentar os rebeldes do ELS, formado por desertores sírios pagos pelo Qatar e comandado por oficiais da Arábia Saudita, por sua vez monitorados por agentes da CIA. Neste contexto Obama promete fazer o que Bush fez no Iraque, ameaçando intervir na Síria para impedir que Assad use as armas químicas. Por sua parte Israel ameaçou atacar o Irão com foguetes nucleares.
Achille Lollo (ROMA) — Nos últimos cinco dias os diretores de jornais, revistas e televisões, bem como todos os bloggueiros que apóiam os rebeldes do ELS e que fazem uso massivo das imagens da TV Al-Jazeera e das informações divulgadas pelo Conselho Nacional Sírio (CNS), se calaram após ter lido as seis laudas de textos do jornal britânicoSunday Times e do alemão Bild am Sonntag, seguidas pelos três minutos gravados pelo canal de rádio Bfmtv-Rmc com o primeiro ministro francês Jean-Marc Ayault. Textos que desmentiam tudo o que eles disseram nesses últimos meses!
O jornal britânico Sunday Times – que não é de esquerda e não tem nenhuma simpatia para o governo sírio – por ser um produto de mercado e por não estar com o rabo preso ao governo de David Cameron, decidiu ganhar muito dinheiro publicando em sua edição de domingo uma reportagem chocante sobre a Síria. Algo que a BBC, o famoso Times, o próprio The Guardian e o The European já deviam ter publicado. De fato, a edição do Sunday Times esgotou e o mesmo aconteceu na Alemanha com a edição do Bild am Sonntagporque as duas publicações desvendaram o pretenso pacifismo não-intervencionista da poderosa primeira-ministra Ângela Merkel bem como do britânico Cameron, revelando que esses governos autorizaram – já há vários meses – a intervenção no conflito sírio de unidades especiais dos seus serviços secretos além de providenciar a transferência de tecnologia militar para nortear as operações militares dos rebeldes contra o exército sírio.
No Sunday Times
O jornal britânico abriu sua reportagem dizendo “....enquanto a comunidade internacional não sabe como parar a guerra civil na Síria, a Grã Bretanha decidiu entrar nesse conflito e ajudar as forças do ELS. Uma ajuda participativa que está sendo realizada pelas tropas especiais do SAS e os agentes especiais do M15 que monitoraram os ataques das tropas do ELS no enfrentamento contra unidades do exército regular sírio...”.
De fato, não se trata de ensinar novas formas de sabotagens ou treinar as técnicas de guerrilha urbana. Os agentes especiais britânicos ou melhor “os 007 de Londres” – como o Sunday Times prefere – na realidade estão trabalhando para organizar os bandos armados dos grupos salafitas (extremistas da Irmandade Muçulmana Síria) e os desertores contratados pelos emissários do Qatar (10.000 dólares por mês ao simples soldado e até 100.000 para os coronéis e generais) em um exército regular capaz de enfrentar e derrotar, o mais rápido possível, as unidades fieis ao governo de Damasco. À confirmação disso tudo o articulista cita fontes dos “007 de Londres” que admitiram “...ter dirigido e participado em uma emboscada nos arredores de Alepo contra 40 blindados do exército regular sírio...”.
O que na realidade significa estar monitorando brigadas mecanizadas de 500 e até 1000 homens, armados de canhões anti-tanques, foguetes RPG-7 e metralhadoras pesadas de 50 mm. Armas que saem das bases britânicas, franceses, italianas e alemãs da OTAN e chegam a Bengase, na Líbia, para depois ser transportadas até a base turca da OTAN, em Adana, onde os rebeldes do ELS mantém seu Comando Geral. É neste lugar que “os 007 de Londres se juntam aos homens do ELS organizando, também o reabastecimento de homens, armas, munições e sobretudo o transporte de foguetes anti-tanques para as unidades do ELS espalhadas nos arredores das cidades da Síria.
Para finalizar o articulista explica que os “007 de Londres”, antes de chegar à base turca de Adana, fazem seu planejamento operacional nas duas bases militares que a Grã Bretanha mantém na ilha de Chipre. Além disso o Sunday Times cita vários dirigentes da oposição síria segundo os quais”...as  autoridades britânicas estão plenamente informadas das operações em curso de suas tropas  especiais e as aprovam em 100%...”
No Bild am Sonntag
O jornal alemão Bild am Sonntag refere que há muitos meses – praticamente desde o início do conflito - um navio-espião do BND (Bundesnachrichtendienst), equipado com várias centrais para espionar as telecomunicações sírias, continua navegando nas águas territoriais da Síria. A função desse navio-espião é de gravar todas as mensagens e as comunicações militares e dos membros do governo e do Estado Major e, também, descobrir com o scanner satelitar a movimentação das tropas síria até um raio de 600 quilômetros da costa. O jornal sublinha que, neste momento, o navio-espião do BND alemão está dando uma particular atenção as movimentações do exército sírio na região de Alepo, onde está em curso uma grande ação do exército regular contra as brigadas do ELS.
As informações e os vídeos são, depois, despachados  para o comando operativo regional da CIA e do M125 britânico que, após ter executado uma leitura estratégica transmitem ao Comando Militar turco as orientações que devem ser repassadas aos comandantes do ELS sob forma de ordens de combates.
A reportagem revela que, além do navio-espião o BND instalou um “centro de escuta permanente” na própria base turca de Adana para interceptar todas  as ligações telefônicas efetuadas na capital Damasco. Por isso, suspeita-se que o atentado em que morreu o Ministro da Defesa e o do Interior, na realidade foi monitorado a partir dessas centrais de espionagem, estabelecendo a data, o horário e o local da explosão dos  dois foguetes que foram lançados contra a sede do Comando Geral do exército Sírio no mês de julho.
Na rádio Bfmtv-Rmc
Os representantes do novo governo francês, e o próprio presidente François Hollande, seguem o mesmo roteiro belicista de Sarkozy, apesar de pertencer ao Partido Socialista do saudoso François Mitterrand. De fato, eles não hesitam em declarar que Assad deve ser derrubado o mais rápido possível e por isso apóiam as  atividades do ELS. Foi que disse o presidente François Hollande, quando, na  semana passada, recebeu no Palácio do Eliseu um representante do Conselho Nacional Sírio. E é o que reafirmou o primeiro ministro Jean-Marc Ayault  quando foi entrevistado pela rádio Bfmtv-Rmc sublinhando “...Aqui na França  estamos ajudando os rebeldes do ELS a quem estamos fornecendo uma  ajuda militar que compreende equipamento de telecomunicações e também de defesa....”
Uma atitude que se explica visto que os Estados Unidos, após a eleição do “socialista” François Hollande, haviam, diplomaticamente, afastado a França do grupo de estados que estava trabalhando para derrubar o governo de Bashar al-Assad. As declarações beligerantes de Hollande e do seu primeiro ministro Ayault reconstituíram a tríade imperial. Assim, na noite de 22 de agosto o primeiro ministro britânico David Cameron, o presidente Obama e o presidente francês Hollande usaram o telefone vermelho para estudar como sustentar o ELS e como impedir a contra-ofensiva do  exército de Bashar el- Assad.
No dia seguinte, dia 23 de agosto, a embaixadora dos EUA, Elisabeth Jones e o vice-subsecretário das relações  exteriores da Turquia, Halit Cevik, chefiavam na capital da Turquia, Ankara, uma importante reunião operativa entre diplomáticos, altos oficias, responsáveis dos serviços secretos e consultores  estratégicos  da Turquia e dos EUA com o objetivo de “...acelerar a queda de Assad aplicando ao conflito uma  estratégia comum...” .
A balelas de Al-Jazeera
Se nas capitais  européias as reportagens do Sunday Times fizeram calar muitos chefes de redação, no mundo árabe todos riram da TV Al-Jazeera quando a TV da Síria veiculou as imagens do vice-presidente sírio Faruk al-Shara – que é de religião sunita – no momento em que saia do seu carro para se encontrar na capital Damasco com o representante do Irã.
De fato, vários jornalistas e  comentaristas da TV Al Jazeera das redações de Amman (Jordânia), Beirute (Líbano) e Ankara (Turquia) entrevistavam membros do CNS que afirmavam ter a certeza de que o vice-presidente da Síria, Faruk al-Shara, havia fugido com toda sua família e  que já se  encontrava em Amman sob proteção dos membros do ELS.  Praticamente o circo midiàtico de Al Jazeera e, depois da TV  saudita, Al Arábia  estava montado chegando ao  absurdo de  anunciar entrevistas gravadas com o vice-presidente Faruk al-Shara que não podiam ser veiculadas por motivos “estratégicos”.
Durante uma dezena de dias estas duas TVs árabes martelaram seus ouvintes admitindo que o governo de Bashar el-Assad  estava preste a se desintegrar em função da “fuga de Faruk al-Shara”. As manipulações  chegaram ao ponto de dizer que os membros do ELS haviam conseguido transferir o vice-presidente Faruk al-Shara para a Turquia onde ele tomaria a direção do ELS.  Depois, quando Faruk al-Shara apareceu em Damasco a TV Al Jazeera  e a TV Al Arábia nem tiveram a coragem de  publicar o desmentido.
O show de Obama e Netanyahu
Todos  sabem que nos Estados Unidos, desde os tempos do presidente Truman, isto é nos anos cinqüenta, nenhum candidato se elegeu presidente sem o apóio dos banqueiros sionistas - que financiaram a campanha eleitoral - e sem o aval da influente comunidade judaica de New York. Por isso, Obama, por um lado deve tranqüilizar o eleitorado democrata de baixa renda de que depois as  aventuras no Iraque  e no Afeganistão, não quer outra intervenção na Síria. Por outro, deve garantir aos governantes  sionistas de Israel que os EUA não deixarão Bashar el-Assad  no governo.
Em função desse contexto, Obama recuperou o roteiro, fantástico e mentiroso de George Bush Jr. para justificar uma possível intervenção na Síria se os generais de Assad fazem uso de  armas químicas contra os combatentes do ELS. No mesmo tempo e com vista tornar mais complexo o cenário geo-estratégico o primeiro ministro sionista, Netanyahu e depois seu ministro da Defesa, Barak (que diz ser trabalhista), disseram publicamente que em novembro – isto é depois das  eleições nos EUA – devem lançar um ataque cibernético-nuclear contra o Irã para evitar que o regime dos  Ayatollah finalize suas centrais  atômicas.
Os  analistas dizem que as palavras de Obama e  as ameaças de Netanyahu são elementos de uma guerra psicológica que o EUA e Israel mantém ativos, apenas, para provocar o descontrole de seus opositores no Oriente Médio. Porém a  maior parte dos eleitores israelenses e até dos EUA e de muitos países  europeus, acreditam que os iranianos querem, mesmo, destruir Israel por ser um estado judeu.
As palavras do democrata Obama, vão, perigosamente, nessa direção criando um clima de mera provocação. De fato, se no cenário político das capitais ocidentais  começa a crescer a idéia de que o presidente da Síria, Bashar el-Assad irá utilizar as armas químicas da mesma maneira como Sadat fez no Iraque, é  evidente que haverá pressões para os EUA atacar a Síria com o  sem o aval da ONU.
Um argumento que a mídia ocidental vai certamente agravar divulgando os relatórios que indicam as quantidades de bombas químicas que a Rússia vendeu ao regime de Damasco. Enfim o estopim poderá ser aceso pelas TV árabes apresentam desertores sírios admitindo que o potencial destruidor de bombas químicas seja usado contra Israel.
Nesse âmbito, o novo presidente dos EUA, seja ele o democrático Obama ou o republicano Roney, terá todas as condições para atacar a Síria, enquanto Israel vai cometer seu maior  erro estratégico indo bombardear o Irã e iniciar, assim, uma guerra sem fim.
Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.

UMA NOVA ARMA NA TENTATIVA DE BANALIZAR A IMAGEM DE LUIZ CARLOS PRESTES



imagemCrédito: Sul21
Anita Leocadia Prestes*
Já  se passaram mais de 20 anos do desaparecimento de Luiz Carlos Prestes. Sua coerência com os ideais revolucionários a que dedicou toda sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal, sempre despertou o ódio dos donos do poder, levando-os à falsificação da História e das posições assumidas por Prestes para melhor poder caluniá-lo.
Mesmo após seu falecimento, Prestes continua a incomodar os poderosos deste país, com insistência aparentemente surpreendente, uma vez que se trata de uma liderança do passado, que não mais está disputando qualquer espaço político. Presenciamos um esforço sutil, mas constante, desenvolvido através de modernos e possantes meios de comunicação, de dificultar às novas gerações o conhecimento da vida e da luta de homens como Luiz Carlos Prestes, cujo exemplo pode servir de inspiração aos jovens de hoje.
Atualmente tornou-se pouco convincente recorrer aos antigos expedientes para satanizar os comunistas: acusá-los de “comer criancinhas assadas na brasa”, de defender a “coletivização das mulheres”, de renegar a família, de desrespeitar as freiras, etc. etc. Hoje os expedientes são outros, mais de acordo com os novos tempos. No caso de Prestes - o mais conhecido e o mais respeitado comunista brasileiro -, por tantos anos caluniado ou silenciado, uma nova tática de desmoralização foi adotada pelos grandes meios de comunicação, comprometidos com os interesses das classes dominantes. Na impossibilidade de questionar sua reconhecida honestidade, assim como sua fidelidade aos princípios revolucionários por que sempre pautou sua existência, o novo expediente consiste na banalização de sua imagem.
Procura-se desviar a atenção do público do legado político e revolucionário de Luiz Carlos Prestes, chamando a atenção para aspectos de sua vida privada, tentando apresentá-lo apenas como um homem comum e inofensivo, que deixou, portanto de representar uma ameaça aos interesses do grande capital. Assim foi há alguns anos atrás, com a ampla divulgação do filme “O Velho”, que apresentava Prestes como um comunista fracassado e dedicado apenas a cultivar roseiras. Agora os inimigos de classe de Prestes e dos comunistas revolucionários que se alinhavam - e continuam se alinhando com suas posições revolucionárias – encontraram uma nova arma. Trata-se de um livro lançado pela sua viúva – um livro eivado de mentiras -, que, segundo a mídia que o tem divulgado, cumpriria o papel de “humanizar” a imagem do “Cavaleiro da Esperança”. Não deixa de ser revelador dos objetivos inconfessáveis de tal “humanização” o fato dessa publicação ter um lançamento promovido pela Embaixada da Colômbia em Brasília. O governo do Sr. Juan Manuel Santos - conhecido por ser a ponta-de-lança do imperialismo na América Latina, por ser um governo que permite a presença de 7 bases norte-americana em seu território, por ser um governo que tortura, faz desaparecer e promove o assassinato de milhares de comunistas e de democratas – patrocina o lançamento de um livro que pretende “humanizar” a imagem de Luiz Carlos Prestes!
Frente à nova arma que vem sendo empregada na tentativa de banalizar a imagem de Prestes, de esvaziá-lo do seu conteúdo revolucionário, é necessário que todos aqueles, homens e mulheres, comprometidos com a luta pelo socialismo em nossa terra, reforcem a vigilância de classe e contribuam para que o legado desse grande brasileiro se torne acessível aos jovens de hoje, aos futuros combatentes de amanhã.
*Anita Leocadia Prestes é professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.

DIÁLOGO COM AS FARC PODE VIR A SER UMA VITÓRIA DO POVO COLOMBIANO



imagemCrédito: lh6
Ivan Pinheiro *
A imprensa vem noticiando o início das negociações políticas, na cidade de Havana, com vistas à solução do conflito colombiano. O presidente Santos anunciou formalmente os entendimentos, que envolveriam os governos cubano e venezuelano, com a sinalização da Noruega de aceitar sediar o diálogo.
Mas antes de comemorar a notícia é preciso aguardar os desdobramentos, ouvir a opinião da insurgência, dos governos citados. As classes dominantes colombianas são ardilosas. Os entendimentos estão ainda numa fase de prospecção.
De qualquer maneira, é verossímil que a negociação se efetive. Como internacionalistas, devemos contribuir para isso, inclusive pressionando o governo brasileiro a se somar à iniciativa e a Unasul a avocar o assunto, antes que caia no âmbito da OEA, onde pontifica a indesejável presença dos EUA. Sem um expressivo respaldo internacional, este processo não irá a lugar nenhum.
Até agora só quem havia dado sinais de disposição para o diálogo político eram as FARC, em seguidos comunicados públicos e gestos, como a libertação unilateral de presos políticos, sem a contrapartida da libertação de um só dos cerca de 7.000 militantes presos sob a custódia estatal.  Todos os observadores sérios da cena política colombiana sabem que não há solução militar para este conflito que já dura meio século e tem origem em causas políticas e sociais. Recente relatório da ONU revela que a Colômbia, em matéria de desigualdade social, só perde na América Latina para Guatemala e Honduras.
Mas não devemos nos iludir com a campanha que tenta mostrar Santos como um democrata pacifista, aproveitando-se de seu “discreto charme da burguesia”, como oligarca de berço, membro da família Santos, dona do maior império de comunicação do país. Comparam-no com o estilo tosco, medíocre e grosseiro de Uribe, cujo currículo é um prontuário de crimes ligados ao narcotráfico e às milícias. Uribe recebeu das oligarquias oito anos de mandato para acabar com a insurgência, sete bases norte-americanas, bilhões de dólares, equipamento militar de última geração, assessoria da CIA e da MOSSAD. Mas não adiantou. Seu discurso arrogante caiu no ridículo.
Não nos esqueçamos de que Santos foi Ministro da Defesa de Uribe, na fase mais agressiva do estado colombiano, que coincidiu com o assassinato de Raul Reyes, ao preço da invasão do espaço aéreo equatoriano. Ambos são agentes do imperialismo norte-americano e da oligarquia colombiana.
Não foi Santos que mudou; foi  a conjuntura. As classes dominantes colombianas já há algum tempo se dividem entre os que querem a continuidade ou o fim do conflito. Os primeiros são os que ganham com a “ajuda militar” dos EUA, o paramilitarismo, o comércio de armas e drogas;  os segundos são os que precisam de um ambiente político estávelpara não atrapalhar o desenvolvimento de seus negócios, para atrair investidores estrangeiros.
Ocorre que fracassou a prometida vitória militar sobre a guerrilha, a despeito da maior ofensiva que o estado colombiano já lhe moveu e dos duros golpes que sofreu com a morte de importantes comandantes. A insurgência, no lugar de se enfraquecer, mantém suas sólidas posições militares e políticas e seu enraizamento no seio da massa campesina que lhe abraça nas fronteiras do vasto território em que luta e domina.
Além do mais, viceja na Colômbia o mais importante, unitário e amplo movimento de massas das últimas décadas, em toda a America Latina. A Marcha Patriótica faz a diferença.  A dois meses de sua fundação, já articula cerca de 2.000 movimentos populares, de camponeses, indígenas, afrodescendentes, trabalhadores urbanos, mulheres, jovens, com uma hegemonia proletária. Só o povo em luta pode garantir a efetivação dos entendimentos e principalmente resultados concretos a seu favor, sem os quais não haverá armistício.
E aqui reside uma das maiores dificuldades, que só poderá ser superada com o avanço cada vez maior da Marcha Patriótica e a solidariedade internacional. As FARC e a ELN jamais aceitarão a paz dos cemitérios. A burguesia sabe que só haverá solução para o conflito se isso representar reais mudanças políticas e sociais a favor do povo, entre as quais o fim do terrorismo de estado, dos paramilitares, a libertação dos presos, o fim do despejo dos camponeses de suas terras, uma reforma agrária verdadeira, ou seja, uma mudança radical do sistema, o que só será possível com uma constituinte livre e soberana com participação popular. Sem este ator, a tentativa será frustrada.
Outra dificuldade é que a iniciativa de entendimentos terá certamente a oposição do imperialismo, notadamente o norte-americano, que não tem qualquer interesse em perder um motivo para construir mais bases militares, além das instaladas no governo Uribe/Santos, e muito menos abandonar seu projeto de atribuir à Colômbia, na América Latina, o papel que Israel desempenha no Oriente Médio.
E por fim, para que não esqueçamos as lições da história, sabemos que a insurgência não entregará suas armas e suas vidas para saciar a fome de sangue e vingança das classes dominantes. O extermínio de mais de 4.000 militantes da União Patriótica, na primeira metade da década de noventa do século passado, após um “acordo de paz” traído, ainda está vivo na memória de todos.
Só com muitas garantias internacionais e mudanças reais a favor do povo é que haverá paz militar na Colômbia a partir desta mesa de negociações. Caso contrário, ela será conquistada pelo povo colombiano, a maior vítima do conflito, que não vacilará em se valer das formas de luta que a realidade impuser.
Em qualquer caso, a luta continuará. O fim do estado de beligerância é positivo; mas não será o fim da luta de classes.
*Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB (Partido Comunista Brasileiro)